Os desinvestimentos da Petrobrás em campos maduros da camada do pós-sal podem colocar sob risco a capacidade intelectual da estatal nas atividades de recuperação incrementada de petróleo (Enhanced Oil Recovery ou EOR, no inglês). A opinião é do geólogo Luciano Seixas Chagas, que vê incoerências na postura adotada pela atual diretoria da petroleira. “Como a Petrobrás segue vendendo [esses ativos], findam também, por tabela, as expertises intelectuais que têm em E&P, prioritárias nas escolhas dos melhores métodos de EOR”, pontuou.

O entrevistado afirma ainda que nem mesmo os recentes investimentos da Petrobrás em Inteligência Artificial (IA) serão capazes de sanar os possíveis efeitos negativos dessa perda de capacidade técnica em recuperação de petróleo em campos maduros. “Seguindo as velhas regras da informática, as saídas de IA dependem das entradas e, principalmente, de quem seleciona essas entradas. Assim, são criadas as boas sementes para um processamento confiável. Quem melhor faz isso é o corpo técnico exemplarmente preparado, como o que antes existia na Petrobrás”, disse.

O geólogo acredita que o melhor caminho seria, ao invés de vender essas áreas, usar as ferramentas digitais para se obter incrementos na produção de campos maduros do pós-sal, principalmente os de produção ainda expressiva. “Esses campos dispõem de um amontoado de dados e curvas de produções reais, aferidas e obtidas com abundantes interações dos dados frente às análises das curvas e das propriedades previamente modeladas na fase inicial”, explicou.

Petronotícias – A Petrobrás anunciou recentemente um novo centro de excelência voltado para inteligência artificial. Gostaria que o senhor comentasse de que forma o uso de IA pode potencializar o estudo geológico das petroleiras e, em especial, o da Petrobrás.

Luciano Seixas Chagas – Positivamente. Não há dúvidas que há e haverá imensas mitigações de riscos com o uso da inteligência artificial no segmento de exploração e produção (E&P). Mitigação não é ausência de risco, com bem diz a etimologia da palavra. A IA tem sido muito usada preliminarmente nos processos, acelerando-os, e melhorando a eficácia das tomadas de decisões em muitas companhias de todo o mundo.

Já o seu uso na exploração, na interpretação propriamente dita, exige uma fase prévia de intensa digitalização de todos os dados, incluindo os sucessos e os fracassos, pois o computador continua sendo uma máquina “burra”, apesar de cada vez mais célere em termos de velocidade de processamento. Como desenvolvimento tecnológico foi muito aumentado na área da tecnologia de informação (TI), com processadores mais ágeis e mais memórias de armazenamento, a busca por novos e melhores algoritmos foi muito acelerada.

Hoje, com a maior integração necessária de dados é possível tornar a geologia virtual das aquisições e processamentos em geologia real, aferida com múltiplas interações de acervo, como as descrições e interpretações de testemunhos geológicos e geofísicos e até mesmo as interpretações (rochas, perfis, análise de atributos, estatísticas etc.) durante a fase de “aprendizado” dos supercomputadores.

Petronotícias – A Petrobrás tem focado em ativos do pré-sal, enquanto vende áreas maduras do pós-sal. O senhor acha que a empresa poderia usar os recursos de IA e manter esses ativos do pós-sal em seu portfólio?

Luciano – É inimaginável não se usar os mesmos processos e máquinas para se obter incrementos na produção de campos maduros do pós-sal, principalmente os de produção ainda expressiva e já com a amortização completa dos investimentos neles realizados. Esses campos dispõem de um amontoado de dados e curvas de produções reais, aferidas e obtidas com abundantes interações dos dados frente às análises das curvas e das propriedades previamente modeladas na fase inicial, mitigando assim as incertezas contidas nos modelos prévios de conteúdos mais probabilísticas.

Isso sempre deveria resultar em incrementos de produção com diminuição dos custos, pois recuperações pós-primárias exigem capitais mais intensivos. Nestes campos, após o uso da IA, praticamente não deveria haver mais geologia virtual, pois tudo deveria estar calibrado e ajustado para se observar o mundo real. O produto das análises previstos versus constatados servem muito – ou deveriam servir – para se aumentar os fatores de recuperações (FR’s) dos reservatórios dos campos do pós-sal e reduzir as dúvidas das seleções dos processos de EOR (Enhanced Oil Recovery) a serem usados. Assim, tornaria as recuperações de óleo e gás da Petrobrás imbatíveis, com números muito melhores do que os de qualquer concorrente.

A Petrobrás tem muito mais dados acumulados nas nossas bacias e campos, os reais mitigadores das incertezas prévias. Ao invés disso, os dirigentes da Petrobras, o CEO Castello Branco, o Conselho de Administração – composto na maioria por desconhecedores da atividade petróleo, cidadãos exógenos à atividade – e experts preferencialmente em finanças, preferem vender tais campos a preços baixos para a concorrência, mostrando uma incoerência ante ao próprio modelo por eles proposto de focar nas atividade de E&P. Explotar e produzir é E&P na veia.

Assim, a insanidade gerencial não reside apenas nas vendas que tornam a Petrobrás uma empresa exclusivamente horizontal, sem as atividades da cadeia vertical do poço ao posto. Fica só nos poços e, ainda assim, também os vendem. Os campos de Roncador, Marlim, Lapa, Maromba, Papa-Terra entre outros são os exemplos de poços de campos vendidos ou em processo de venda. No pré-sal, venderam a maior acumulação de gás associado do Brasil, a de Carcará, hoje Campo de Bacalhau, junto com expressivos volumes de óleo que foram vendidos a preço de banana. Podre! Esta é a tônica das últimas administrações.

Petronotícias – O senhor acha que a venda de ativos em pós-sal e de campos maduros coloca em risco o acervo intelectual da Petróbras nas atividades de recuperação incrementada de petróleo?

Luciano – Como a Petrobrás segue vendendo, findam também, por tabela, as expertises intelectuais que têm em E&P, prioritárias nas escolhas dos melhores métodos de EOR. Além disso, a atual administração quer fazer crer que fará milagres apenas com a IA “cega”. O senhor Castelo Branco já fez inúmeras reportagens falando disso, vendendo a falsa ideia que a atividade terá inexistência absoluta de riscos, o que é indubitavelmente uma grande falácia. Seguindo as velhas regras da informática, as saídas de IA dependem das entradas e, principalmente, de quem seleciona as últimas. Assim, são criadas as boas sementes para um processamento confiável. Quem melhor faz isso é o corpo técnico exemplarmente preparado, como o que antes existia na Petrobrás.

O que hoje ocorre? Os mais antigos estão sendo demitidos ou forçados a se aposentarem. Os consultores de elevada expertise que existiam estão perdendo os cargos técnicos e estão substituídos por outros agentes que adentram à empresa, sem concursos, justo os mesmos que engrossam os discursos do presidente Castello Branco e do seu RH, um fiscalizador ensandecido, o que faz doutrinação na empresa para os seus empregados das virtudes do capitalismo rentista.

Os gerentes de toda a empresa têm seus votos fiscalizados nas assembleias sindicais, verdadeiros votos de cabrestos, e são punidos se não votarem a favor dos modelos vigentes. Chamam isso de democracia e de boa gestão. A Petrobras, que se desenvolveu graças a pluralidade de pensamentos com os divergentes incluídos, está finda, por decreto do gerentes atuais, os mesmos que nada fizeram para edificar o patrimônio acumulado e que agora o destrói, espalhando falsas asserções, puro eufemismo de mentiras repetidas à exaustão com discursos e práxis de mesmo tom.

As controvérsias importantes no crescimento intelectual entram em extinção e, por conseguinte, o melhor desenvolvimento. Tudo isso ganhando com gerentes auferindo elevadíssimos salários diretos e indiretos via bônus de até R$ 700 mil mensais e recebendo questionamentos do TCU [Tribunal de Contas da União] por inundarem as gerencias da Petrobras com pessoas alheias às atividades fins, justo os ingressados sem quaisquer concursos. Pior é como vendem bons ativos produtores do pós-sal que contêm excelentes upsides do pré-sal, exatamente os já discriminados pela IA e com muitos dos riscos mitigados por similaridades pesquisadas. Quem viu o filme Dilema das Redes, compreende muito bem o que digo aqui.

Petronotícias – Ao perder seu corpo técnico, como o senhor sustenta, isso coloca em risco até mesmo a eficácia do uso de IA?

Luciano – Lógico. Como entender a atuação da presente direção da Petrobrás? Eles estão vendendo bons ativos com upsides e deixam passar as oportunidades de diminuir mais ainda os custos de extração com o uso da IA, e assim melhorar não só as curvas de produção, como também atenuar as taxas de declínio dos campos maduros. Pouco se investe para aumentar os fatores de recuperação dos campos maduros. Tudo isso aliado a demissão, a aposentadoria e o malsinado ingresso de corpos estranhos à atividade petróleo.

Detalhando melhor: a IA é fincada no uso e carregamento das memórias e acervos físicos e intelectuais. Perdendo os últimos quem realmente pode melhorar os algoritmos posteriormente os processos de recuperação eficaz dos reservatórios? Os estranhos que só conhecem de finanças e das “virtudes”do rentismo? Como isso pode melhorar as recuperações dos reservatórios? Eles desconhecem o que é porosidade, permeabilidade, inversões sísmicas, melhores atributos, AVO’s, bubble e dew point, os mecanismos de produção dos reservatórios mantenedores das suas pressões, acúmulo e armazenamento potencial de CO2 em cavernas de sal com a sua estranha reologia etc.

Esta soma de nomes, estranhos para a maioria dos que nos leem nesta entrevista, permitem análises acuradas de CAPEX, OPEX, e dos processos inteiros envolvidos. É também a maior integração de dados que permite a elaboração e obtenção cada vez mais intensa de melhores algoritmos, via o capital intelectual reunido ao longo da edificação da Petrobrás. Onde divergência técnica e intelectual tinha como objetivo melhorar a performance dos processos e recuperações utilizados pela Petrobrás. Com a IA isso não será diferente. Será feito o mesmo mais rápido e com a análises adicionais envolvendo maior multiplicidade cenários antes já imaginados, mas de difícil processamento ou de mais complexa modelagem por conta da limitação física, pretérita, dos hardwares de processamento dos dados diretos e indiretos. O uso da IA se dá muito além da manipulação adequadas de acervos por máquinas velozes, mas depende também da qualidade de quem manipula os dados. É eficaz principalmente no conhecer e no saber como selecionar e organizar as entradas computacionais.

Para o Brasil então tudo está diferente. Os técnicos da Petrobrás da minha geração trabalhavam com o próprio orgulho pátrio e dedicação. Hoje os brasileiros têm apenas 30% do capital ordinário da empresa e o restante das ações preferenciais e nominativas foi vendido no mercado bursátil, dentro e principalmente fora do Brasil. Muitos dos que hoje trabalham na empresa pouco se importam com o imbricamento dela com o Brasil e com seu desenvolvimento. Assusta ver o Brasil minguando na atividade petrolífera. Inventamos motes para vender ativos. Por exemplo: no refino, queremos criar concorrência na Bahia e no Paraná, por exemplo. Qual a concorrência a ser criada onde só existe um ator? Entretanto, a mantra mantida é a da “livre e libertadora concorrência” e apenas por agentes privados, justo quando os economistas ortodoxos do FMI recomendam mais Kynes e investimentos públicos para impulsionar o desenvolvimento de um mundo diferente paralisado pelo vírus. Pior é que muitos repetem parolando o dito. E vivas para as vendas que só beneficiam o mercado de práxis absolutamente rentista tanto quanto os que dirigem e privatizam a Petrobrás.

Petronotícias – A Petrobrás alega que os campos do pós-sal têm custos maiores e, por isso, são menos atrativos no cenário de baixo preço de barril. Como o senhor vê essa questão?

Luciano – Lógico que todos os campos petrolíferos experimentam a fase de exaustão. O mote deveria ser que uma empresa menor pode tornar um campo deficitário em campo rentável via menor tamanho (overhead). Ninguém questiona isso. Mas, expandindo a pergunta feita, queremos um mercado competitivo ou quebrar as empresas que se habilitam para comprar campos maduros em terra ou mar? É óbvio que quem possui ativos no Brasil era a Petrobras por dois motivos. Primeiro, estatal, tinha que suprir o Brasil em petróleo que diziam inexistente e distribuí-lo como processados para um gigante continental chamado Brasil.

É bom lembrar que, no início, todos podiam procurar óleo no Brasil e todas as empresas deixaram de investir, por absoluta aversão ao risco. Na ausência de investimento, foi criada uma Petrobrás – estatal e atrevida, xingada por muitos como ineficiente no E&P. Depois de atingida a autossuficiência e quebrado o monopólio, a aversão ao risco das empresas alhures mudou, mas ainda se mantém elevado, pois é melhor comprar barato as descobertas de petróleo ao invés de gastar a grana para encontrá-las. Assim está o pós-sal e o dilema. Albacora deve ser vendido, apesar dos investimentos já estarem completamente amortizados e com a produção substantiva. E pior: ainda quem comprar leva de vantagem os reservatórios ainda inexplorados do pré-sal e que podem ter investimentos de riscos mitigados com o uso da IA. E aí, como explicar?

Como podemos observar, há diferentes contextos e análises. Uns, os de ativos invendáveis pois podem produzir melhor nos pós-sal com usos de técnicas avançadas de EOR. Outros de ativos vendáveis, desde que isso não se signifique a quebra dos compradores. Há vendas que não tem lógica nos valores pagos, quando se compara com as expectativas de produção, com os investimentos e os retornos de capital e um mundo clamando por energias alternativas por conta do meio-ambiente. As perguntas são: Quem fez a melhores compras? Os preços de venda foram os de mercado ou alguns certamente irão ganhar muito enquanto outros têm uma grande chance de quebrar? É assim que se constrói um mercado competitivo?

Para quem quer uma indústria realmente pujante, a Petrobras não pode lucrar para derrocada de uns e também não pode perder para beneficiar outros, alhures. Também não pode deixar de investir ou postergar vendas como fez nos campos terrestres, numa conduta absolutamente irresponsável dos seus últimos dirigentes, prejudicando inúmeros Estados do Nordeste e depreciando alguns bons ativos. Usando a própria pergunta respondo: se são menos atrativos porque passar “os abacaxis” para outros. Isso é uma conduta ética?

*Escrito por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) – Petronotícias*