Gás de cozinha, diesel e GNV chegam aos maiores valores reais do século XXI. Etanol e gasolina estão próximos ao recorde, afirma o economista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), Eric Gil Dantas*. Leia o artigo divulgado pela FNP:

Infelizmente continuamos a assistir o aumento dos preços dos derivados de petróleo no Brasil. No último resultado do INPC-IPCA IBGE (julho), em apenas um mês a gasolina subiu 1,24%, o gás de botijão 4,17%, gás encanado 0,48%. Em 12 meses, combustíveis (domésticos) subiram 27,51% e combustíveis (transporte) 41,3% – o item com maior inflação do ano. Junto à energia elétrica, os combustíveis foram responsáveis por gerar o mais alto índice de inflação para julho (INPC) desde 2003. Isto é, só no último ano do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 2002, tivemos um INPC superior ao do mês passado.

Esta inflação dos derivados de petróleo ajuda a afundar uma economia já em grave crise. Temos os maiores níveis de desemprego desde que o IBGE adotou a atual metodologia, através da PNAD Contínua, 14,6% (inferior apenas ao início deste ano, que estava em 14,7%). Como consequência da falta de emprego e do aumento da inflação, o rendimento médio real da população continua caindo, 3,2% a menos entre março e maio deste ano se comparado ao mesmo trimestre de 2020.

Para dar a dimensão do problema, vejamos como cinco combustíveis – quatro derivados de petróleo e gás e um biocombustível – se comportaram em termos reais desde que a ANP disponibiliza a média dos seus preços mensais, em julho de 2001. A comparação deflacionada, jogando todos os valores para julho de 2021, é importante para analisarmos as reais mudanças de preços, principalmente em uma economia com histórico de alta inflação, como é o Brasil. Apenas agosto de 2021 utilizamos a última média semanal disponibilizada pela ANP, para que assim possamos ver o dado mais atualizado possível, que é o do dia 15 de agosto. Setembro de 2020 ficou de fora deste levantamento, pois foi o único mês em que a ANP não pôde realizar a pesquisa semanal/mensal.

O GLP (gás de cozinha) é o combustível com maior aumento real dos últimos anos. Como podemos ver no Gráfico 1, a média para agosto está em R$ 93,34. Se compararmos ao início da adoção da política de preços da Petrobrás, o PPI, temos um aumento de 69% em termos nominais e de 37% em termos reais (em outubro de 2016 o valor nominal era de R$ 55,34, e real de R$ 68,14). Desde março de 2021, já temos recordes sucessivos, quando o valor real superou o mês de julho de 2002 (R$ 83,45 em valores de julho de 2021), mesmo com o corte do imposto federal em cima do GLP, que começou a vigorar em março.

Obviamente que a média esconde as especificidades regionais. Enquanto a média nacional é de R$ 93,34 para cada botijão de gás de 13kg, este valor sobe para R$ 114,81 no Mato Grosso e cai para R$ 85 no Distrito Federal, diferenças estas que podem ser vistas no Gráfico 2. Em geral, os preços do GLP mudam principalmente por conta da distância entre o local de produção do gás de cozinha e o estado de destino.


O segundo item que está batendo recorde de preços reais é o gás natural veicular (GNV). Este combustível ganhou ainda mais importância por ser um custo de trabalho dos motoristas de aplicativo. Uma opção que em tese seria mais barata, teve um grande aumento acima da inflação de 2017 para cá, só interrompido no auge da pandemia (quando houve a diminuição drástica do preço do petróleo, gás e derivados em geral). De outubro de 2016 (início do PPI) até hoje, o GNV subiu em termos nominais 83%, e em termos reais 49%. Desde maio deste ano, temos o maior preço real do GNV para o século XXI, quando passou para um valor real de R$ 3,36. De lá para cá não parou de subir em nenhum mês.

Já o Diesel S-10 teve seu maior patamar real no mês de julho deste ano, quando custou R$ 4,69. O preço atual está 2 centavos abaixo. De outubro de 2016 para cá houve um aumento nominal de 48% no preço deste combustível e 21% em termos reais. Abril foi o único mês com diminuição do preço do diesel desde junho do ano passado. A diminuição naquele mês foi decorrente da política de zerar o imposto federal, que durou apenas dois meses.

Já a gasolina comum está caminhando para o seu maior patamar, mas ainda é inferior ao pico que ocorreu em fevereiro de 2003, quando em valores atualizados chegou a R$ 6,18, e comparado ao trimestre de março a maio de 2006, quando atingiu 6 reais. No Centro Oeste, a gasolina já ultrapassou este patamar, hoje com uma média de R$ 6,185 por litro.

Por fim, temos o etanol também se aproximando do seu pico histórico. Hoje o litro do etanol custa R$ 4,50, só mais barato do que março e abril de 2006, quando custava (em valores atualizados) R$ 4,54 e R$ 4,52, respectivamente. Desde outubro de 2016, houve um aumento nominal de 68% e 36% de aumento real no preço do etanol.

Ou seja, desde que foi estabelecido o PPI, tivemos uma subida de preços destes combustíveis, em termos reais (ou seja, acima da inflação) de: GLP, 37%; Gasolina Comum, 32%; Diesel S-10, 21%; GNV, 49%; e Etanol, 36%. São os maiores patamares da série histórica da ANP para GLP, Diesel e GNV, já gasolina e etanol se aproximam dos seus recordes.

Com a política de privatizações em pedaços da Petrobrás, que já ultrapassa a venda de mais de R$ 200 bilhões de ativos da estatal, o poder de o Estado estabelecer preços vai desaparecendo, se diluindo no mercado – mercado este que se transforma dia após dia em monopólios e oligopólios privados. Na verdade, a Petrobrás utiliza o que o governo Bolsonaro imagina ser os seus últimos esforços como empresa estatal forte, para estabelecer o mais alto preço possível de derivados a fim de garantir a entrada destes agentes privados (produtores e importadores), e preparar a venda dos seus ativos, já garantindo uma estrutura de mercado que lhes proporcionem o mais alto lucro possível, lucro este sustentado com a miséria do povo que financiou a Petrobrás e a descoberta do Pré-sal.

*Eric Gil Dantas é economista do Ibeps e doutor em Ciência Política.

 

Leia também o artigo de Marival Matos: A política de preços dos combustíveis no Brasil antes e depois da flexibilização do monopólio estatal do mercado de petróleo.