{"id":35174,"date":"2020-10-29T16:13:19","date_gmt":"2020-10-29T19:13:19","guid":{"rendered":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/?p=35174"},"modified":"2020-10-29T16:13:19","modified_gmt":"2020-10-29T19:13:19","slug":"saiba-como-as-trabalhadoras-petroleiras-lutam-contra-assedio-e-a-precarizacao-das-condicoes-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/saiba-como-as-trabalhadoras-petroleiras-lutam-contra-assedio-e-a-precarizacao-das-condicoes-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Saiba como as Trabalhadoras petroleiras lutam contra ass\u00e9dio e a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho"},"content":{"rendered":"<p>Reportagem da revista Marie Claire ouviu mulheres petroleiras que denunciam piora das condi\u00e7\u00f5es de trabalho com a pandemia, al\u00e9m da luta constante contra o ass\u00e9dio. A mat\u00e9ria foi publicada no dia 27\/10 e entrevistou tamb\u00e9m dirigentes da FNP, Elita Balbino Azevedo, 34 anos, e Marcelo Juvenal. N\u00e3o deixe de ler!<\/p>\n<p><strong>Leia a \u00edntegra da reportagem:<\/strong><\/p>\n<p>*Em alto mar ou terra firme, petroleiras enfrentam solid\u00e3o, ass\u00e9dio e precariza\u00e7\u00e3o*<\/p>\n<p>Ao chegar para o primeiro dia de trabalho como t\u00e9cnica de opera\u00e7\u00e3o da Petrobras em uma refinaria em Manaus, Elita Balbino Azevedo, 34 anos, realizava um sonho. Depois de seis meses de curso de forma\u00e7\u00e3o, a engenheira de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o via a hora de ir a campo. &#8220;Na primeira vez que entrei em um laborat\u00f3rio qu\u00edmico da Petrobras, meus colegas falaram que eu parecia uma crian\u00e7a na Disney&#8221;, diz. &#8220;Sou apaixonada por qu\u00edmica industrial e \u00e9 um privil\u00e9gio poder contribuir diretamente para o PIB do pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar do deslumbramento, logo de cara percebeu que enfrentaria dificuldades. Elita ouviu do supervisor que ele era obrigado a receb\u00ea-la ali, mas que n\u00e3o concordava com a presen\u00e7a de mulheres no ambiente.&#8221;Respondi que eu tinha sido aprovada em um concurso p\u00fablico, ent\u00e3o n\u00e3o era ele que ia me impedir de fazer nada&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Apenas em 2000 foram abertos concursos p\u00fablicos para o posto de t\u00e9cnico de opera\u00e7\u00e3o, o que aumentou o espa\u00e7o para mulheres nessa fun\u00e7\u00e3o. &#8220;At\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 homens eram contratados, por ser uma fun\u00e7\u00e3o que exige esfor\u00e7o f\u00edsico: subir e descer escada de marinheiro, abrir e fechar v\u00e1lvulas pesadas. Para voc\u00ea ter uma ideia, quando as primeiras mulheres chegaram na refinaria, cinco anos antes de mim, nem banheiro feminino tinha&#8221;, recorda Elita. Ainda hoje, mulheres s\u00e3o apenas 16% do quadro de funcion\u00e1rios da Petrobras.<\/p>\n<p>A empresa, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que o registro mais antigo de admiss\u00e3o de mulheres no cargo de t\u00e9cnico de opera\u00e7\u00e3o data de 1975 e que n\u00e3o h\u00e1 qualquer restri\u00e7\u00e3o \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o das profissionais: &#8220;A representatividade feminina na Petrobras de 16% ocorre principalmente em fun\u00e7\u00e3o do desequil\u00edbrio, presente na sociedade como um todo, entre homens e mulheres nas carreiras STEM (da sigla em ingl\u00eas: Ci\u00eancias, Tecnologia, Engenharia e Matem\u00e1tica). H\u00e1 avan\u00e7os recentes, principalmente nos cargos da alta administra\u00e7\u00e3o. Na diretoria executiva, mulheres ocupam duas das oito cadeiras. E, nos \u00faltimos dois anos, o n\u00famero de gerentes executivas aumentou de cinco para onze&#8221;.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica de opera\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada perigosa e envolve diversos riscos: a exposi\u00e7\u00e3o ao benzeno, um composto t\u00f3xico e cancer\u00edgeno, e ao alto ru\u00eddo das m\u00e1quinas. Al\u00e9m disso, trabalhar na explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo significa lidar com produtos inflam\u00e1veis. &#8220;Estamos literalmente trabalhando em cima de uma bomba&#8221;, diz Elita, que est\u00e1 h\u00e1 10 anos no polo de Urucu, no meio da floresta amaz\u00f4nica. &#8220;A minha atribui\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente t\u00e9cnica. Trabalho em uma planta de processamento, onde o g\u00e1s natural \u00e9 separado em por\u00e7\u00f5es que podem virar o g\u00e1s de autom\u00f3vel ou de cozinha, por exemplo. Tomo conta do processo da unidade, monitoro equipamentos como bombas, compressores, verifico as temperaturas de cada processo&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Elita j\u00e1 passou por in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio ao longo dos quase 15 anos de carreira. Desde epis\u00f3dios como o de um chefe que pediu a ela que passasse um caf\u00e9zinho para a equipe ou ent\u00e3o o de um colega que foi entregar um documento e aproveitou para alisar sua coxa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vulva. Teve tamb\u00e9m a vez em que Elita criticou o enxugamento do quadro de funcion\u00e1rios durante uma reuni\u00e3o e o chefe reagiu de forma violenta: &#8220;Ele ficou muito nervoso e veio para cima, quase encostando a cabe\u00e7a dele na minha. A\u00ed foi uma confus\u00e3o grande&#8221;. Depois disso, Elita foi afastada e ficou tr\u00eas anos em uma fun\u00e7\u00e3o administrativa \u2013 como uma forma de puni\u00e7\u00e3o, diz ela. Desenvolveu crises de ansiedade e precisou de acompanhamento psicol\u00f3gico por seis meses.<\/p>\n<p>Quem trabalha em plataformas passa temporadas longe de casa. A escala geralmente \u00e9 em turnos de 8h, de 14 dias de trabalho em alto mar para 21 de folga. Com a pandemia, foi aumentado para 21 dias de trabalho e o mesmo per\u00edodo para descanso, em turnos de 12h. Esse regime de trabalho \u00e9 especialmente dif\u00edcil para as mulheres com filhos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Monique*, 34, que atua como t\u00e9cnica de seguran\u00e7a em uma unidade na Bacia de Campos, litoral de S\u00e3o Paulo. M\u00e3e de um menino de 3 anos e de uma menina de 2, afirma que o maior desafio \u00e9 ficar longe deles. Com a pandemia, passou a ficar mais dias embarcada e as crian\u00e7as, em casa sem escola. Os familiares que ajudavam a cuidar deles moram longe e, por causa da Covid-19, n\u00e3o podem mais se deslocar. O marido trabalha \u00e0 noite. Da embarca\u00e7\u00e3o, e pelo celular, Monique entrevista poss\u00edveis bab\u00e1s e administra as demais necessidades da casa. &#8220;\u00c9 uma sobrecarga imensa&#8221;, diz ela. &#8220;Hoje sei que preciso de ajuda psicol\u00f3gica. Sinto vontade de quebrar uma perna para n\u00e3o ter que embarcar de novo e deixar meus filhos. Sou dona de casa \u00e0 dist\u00e2ncia. Minha filha fica bem, mas tem medo de qualquer pessoa sair de perto dela. Meu filho n\u00e3o fala comigo, fica com raiva de mim enquanto estou aqui. Tento fazer chamada de v\u00eddeo e ele fala que n\u00e3o quer conversar comigo, nem me ver.&#8221;<\/p>\n<p>Monique conta que quando entrou na profiss\u00e3o, com 22 anos, era tratada pelos colegas como &#8220;boneca&#8221; at\u00e9 conseguir se impor pela primeira vez \u2013 e a\u00ed passar a ser vista como &#8220;louca&#8221;, &#8220;mal amada&#8221; e &#8220;chiliquenta&#8221;. &#8220;\u00c9 um caminho muito longo at\u00e9 propor uma ideia e ser escutada, n\u00e3o arregar s\u00f3 porque est\u00e3o todos contra voc\u00ea. Ficam todos comendo pipoca e esperando que eu cometa algum erro&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>&#8220;Teve uma vez que embarcou um colaborador para fazer manuten\u00e7\u00e3o nos equipamentos da minha \u00e1rea. Eu precisava acompanhar esse servi\u00e7o e ele j\u00e1 chegou com m\u00e1 vontade de trabalhar, ficava perguntando se era eu que precisava acompanhar, visivelmente incomodado. No fim faltavam alguns equipamentos no relat\u00f3rio dele. Questionei e ele disse que simplesmente n\u00e3o deu tempo e que n\u00e3o ia fazer. Falei que ent\u00e3o n\u00e3o ia assinar o relat\u00f3rio e a\u00ed ele subiu o tom, ficou agressivo. Falei que n\u00e3o adiantava gritar, n\u00e3o ia chancelar o servi\u00e7o feito pela metade. A\u00ed ele saiu da sala me xingando, fazendo esc\u00e2ndalo&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Monique diz tamb\u00e9m que &#8220;cantadas&#8221; por parte dos colegas s\u00e3o frequentes. &#8220;Um rapaz me achou no Facebook e ficou me mandando mensagem. Essa vez foi ruim, me deu medo. Ele ficava falando que n\u00e3o conseguia trabalhar porque pensava em mim o dia inteiro, que sonhava comigo. Falei para ele parar e ficar longe de mim. A\u00ed ele continuou, eu bloqueei ele, e ele desembarcou logo depois. Muito desconfort\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Andressa Delbons, 33, t\u00e9cnica de opera\u00e7\u00e3o na refinaria de Duque de Caxias (Reduc), RJ, dirigente do Sindipetro Caxias e coordenadora do Coletivo de Mulheres da FUP (Federa\u00e7\u00e3o \u00danica dos Petroleiros), a entidade n\u00e3o recebeu nenhuma den\u00fancia formal de ass\u00e9dio e por isso n\u00e3o h\u00e1 um levantamento dos casos. &#8220;Quem te disser que nunca foi assediada est\u00e1 mentindo. \u00c9 um ambiente absolutamente machista. Quando comecei, recebia diversos convites desnecess\u00e1rios. Ouvi de colegas que eu n\u00e3o precisava trabalhar, que podia ficar enfeitando o ambiente.&#8221;<\/p>\n<p>Andressa conta que a principal conquista do coletivo, criado em 2012, foi a extens\u00e3o da licen\u00e7a paternidade de 5 para 20 dias. Agora lutam para que seja equivalente \u00e0 licen\u00e7a maternidade, de 6 meses. Tamb\u00e9m conseguiram assegurar espa\u00e7os de amamenta\u00e7\u00e3o em boa parte das unidades da Petrobras e a redu\u00e7\u00e3o de jornada para lactantes. &#8220;Criar o coletivo foi importante porque o ambiente sindical \u00e9 ainda mais masculino do que o petrol\u00edfero. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, n\u00e3o tinha mulher dentro do sindicato. Hoje, j\u00e1 temos um n\u00famero proporcional de mulheres na dire\u00e7\u00e3o. As pol\u00edticas de g\u00eanero passaram a ganhar mais import\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n<p>Paula*, t\u00e9cnica de seguran\u00e7a de uma empresa terceirizada em uma plataforma na Bacia de Campos, fez parte de uma equipe com outras tr\u00eas mulheres por 4 anos. Em uma reuni\u00e3o com o gerente, reivindicou melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e ouviu como resposta que ele deveria ent\u00e3o simplesmente trocar aquela equipe por uma formada somente por homens. &#8220;Nesse s\u00e9culo acontecer algo assim foi a coisa mais rid\u00edcula que j\u00e1 ouvi de um l\u00edder&#8221;, diz.<\/p>\n<p>As petroleiras entrevistadas pela reportagem denunciam uma piora dr\u00e1stica nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho ao longo dos \u00faltimos anos e um quadro de adoecimento mental generalizado dentre os trabalhadores, agravado na pandemia da Covid-19. A maior parte preferiu falar sob anonimato por temer retalia\u00e7\u00f5es da Petrobras. Elas descrevem uma &#8220;ca\u00e7a \u00e0s bruxas&#8221; dentro da empresa. Um dirigente sindical do Sindipetro Caxias foi punido com uma suspens\u00e3o ap\u00f3s conceder entrevista ao jornal O Globo em junho deste ano, na qual afirmou que a explos\u00e3o ocorrida na Reduc naquele m\u00eas foi causada por falhas de manuten\u00e7\u00e3o e inspe\u00e7\u00e3o na tubula\u00e7\u00e3o da unidade de destila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Petrobras alega que o funcion\u00e1rio foi punido por descumprir a norma de confidencialidade de informa\u00e7\u00f5es relativas a investiga\u00e7\u00f5es do acidente.<\/p>\n<p>A empresa tamb\u00e9m nega a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a das unidades: &#8220;Pelo contr\u00e1rio, podemos citar o aprimoramento do programa de auditorias internas de seguran\u00e7a operacional com o objetivo de combater desvios de seguran\u00e7a. Tamb\u00e9m tornamos mais r\u00edgidos os padr\u00f5es de seguran\u00e7a para atividades de mergulho e de avia\u00e7\u00e3o, entre outras. As manuten\u00e7\u00f5es preventivas, realizadas justamente para evitar acidentes, s\u00e3o realizadas em intervalos de tempo definidos conforme regulamenta\u00e7\u00e3o e as caracter\u00edsticas de cada unidade&#8221;.<\/p>\n<p>Foram registrados ao menos dois suic\u00eddios de trabalhadores do setor neste ano: um petroleiro de uma refinaria da Bahia em setembro e outro no Rio de Janeiro em outubro, que estava em isolamento no quarto de hotel um dia antes de embarcar, conta Marcelo Juvenal Vasco, da secretaria de sa\u00fade da FNP (Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Petroleiros). &#8220;Temos muitos casos de trabalhadores depressivos e dependentes qu\u00edmicos. N\u00e3o s\u00f3 pela condi\u00e7\u00e3o do trabalho em si, mas tamb\u00e9m pela exposi\u00e7\u00e3o a subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que absorvem pelas vias a\u00e9reas e cut\u00e2neas. Existem estudos que evidenciam que essa exposi\u00e7\u00e3o pode levar a transtornos mentais&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A Petrobras afirma possuir um programa de treinamento e palestras com enfoque em sa\u00fade mental, e uma equipe multidisciplinar para atendimento. No per\u00edodo de pandemia, a empresa disponibilizou um canal interno para atendimento psicol\u00f3gico de forma remota e individual. Elita, no entanto, diz que as equipes de atendimento foram reduzidas e praticamente n\u00e3o embarcam mais, e o canal \u00e9 pouco divulgado. O mesmo \u00e9 dito por outra entrevistada, sob anonimato: &#8220;O servi\u00e7o \u00e9 absolutamente insuficiente, principalmente nas \u00e1reas operacionais. Esse programa de treinamento e as palestras com esse enfoque eu desconhe\u00e7o&#8221;.<\/p>\n<p>Monique conta que j\u00e1 viu uma colega desembarcar de uma plataforma com camisa de for\u00e7a, em surto. Foi afastada e nunca mais voltou ao trabalho. Tamb\u00e9m j\u00e1 passou por uma unidade, no ano passado, em que quatro funcion\u00e1rios estavam com s\u00edndrome do p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Segundo ela, o come\u00e7o da pandemia foi particularmente dif\u00edcil: &#8220;N\u00e3o tenho nem palavras para descrever. Todo mundo em casa e a gente tendo que embarcar, sem m\u00e1scara, sem vacina, sem saber quem est\u00e1 contaminado. N\u00e3o tinha transporte para irmos e voltarmos das plataformas. Hoje estamos bem, me sinto segura. Mas no come\u00e7o ningu\u00e9m sabia que tipo de medida de prote\u00e7\u00e3o t\u00ednhamos que tomar&#8221;.<\/p>\n<p>Elita foi contaminada com a Covid-19 no primeiro embarque. Ao contr\u00e1rio de alguns colegas infectados, ela n\u00e3o precisou ir para a UTI, mas ainda hoje sofre com as sequelas da doen\u00e7a. &#8220;Sentia muita dor no peito, na cabe\u00e7a, no corpo todo. Precisei de repouso constante. Depois tive uma crise renal, fiz tomografia, expeli as pedras, mas os m\u00e9dicos suspeitam que tenha sido efeito colateral da doen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Paula conta que os espa\u00e7os de lazer nas plataformas foram fechados por quest\u00f5es sanit\u00e1rias, prejudicando ainda mais a sa\u00fade mental dos trabalhadores. &#8220;A gente passa 12 horas trabalhando e 12 horas dormindo. Trabalhamos com metas, com prazos, sob muita press\u00e3o o tempo inteiro. Com esse desgaste, o trabalhador come\u00e7a a sentir incapacidade, nessa carga excessiva de trabalho de 12 horas. Um bom profissional n\u00e3o quer atingir meta, quer o servi\u00e7o feito com qualidade. O trabalho em confinamento n\u00e3o \u00e9 para qualquer um. Vai acumulando at\u00e9 chegar no n\u00edvel de estresse limite. O cliente n\u00e3o quer saber disso, s\u00f3 das metas. Voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 mais uma pe\u00e7a. Se n\u00e3o trabalha feito rob\u00f4, n\u00e3o serve. Essa desvaloriza\u00e7\u00e3o que nos adoece.&#8221;<\/p>\n<p>Os cortes de gastos na estatal provocaram a diminui\u00e7\u00e3o no quadro de funcion\u00e1rios mas n\u00e3o no volume de trabalho, o que leva a situa\u00e7\u00f5es de ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es, denunciam os sindicatos. Com a pandemia, trabalhadores do grupo de risco foram afastados, diminuindo ainda mais o pessoal. Em meio \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o de unidades da empresa, vivem sob a incerteza de serem transferidos para outras localiza\u00e7\u00f5es e \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre janeiro de 2019 e julho de 2020, a Petrobras abriu 48 processos de vendas de ativos, uma m\u00e9dia de 2,5 por m\u00eas, de acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos S\u00f3cio-Econ\u00f4micos). A m\u00e9dia era de 1,4 por m\u00eas durante o governo Michel Temer e 0,4 por m\u00eas no \u00faltimo mandato de Dilma Rousseff, segundo reportagem da Folha de S. Paulo.<\/p>\n<p>Sandra*, que trabalha como t\u00e9cnica de opera\u00e7\u00e3o na Refinaria Presidente Get\u00falio Vargas (Repar), no Paran\u00e1, conta que, com a implementa\u00e7\u00e3o do chamado estudo de O&amp;M (Organiza\u00e7\u00e3o e M\u00e9todo), em 2017, a equipe foi reduzida em 40%. A metodologia do modelo, segundo ela, \u00e9 questionada por especialistas da \u00e1rea de seguran\u00e7a do trabalho, e foi utilizada pela dire\u00e7\u00e3o da Repar para justificar a redu\u00e7\u00e3o do pessoal. Por causa disso, ela passou a monitorar mais opera\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Em uma ocasi\u00e3o, percebeu e conseguiu conter por uma quest\u00e3o de minutos o aumento repentino na press\u00e3o de g\u00e1s sulf\u00eddrico em um equipamento. &#8220;O risco de acidentes geralmente \u00e9 controlado, no entanto com a sobrecarga esse tipo de evento torna-se mais frequente. Acidentes na ind\u00fastria qu\u00edmica t\u00eam um alto potencial de risco e uma poss\u00edvel contamina\u00e7\u00e3o poderia ter matado n\u00e3o s\u00f3 os funcion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m quem vive nos arredores da refinaria&#8221;, diz Sandra.<\/p>\n<p>Para Elita, \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 um acidente grave acontecer: &#8220;Faltam materiais, manuten\u00e7\u00f5es s\u00e3o declaradas mesmo sem a troca de todos os componentes, as unidades est\u00e3o sucateadas. Equipamentos est\u00e3o envelhecendo. Uma tubula\u00e7\u00e3o corro\u00edda, com vazamento, pode levar a uma explos\u00e3o. A gente pode perder uma vida e todas ao mesmo tempo&#8221;.<\/p>\n<p>*Nomes foram trocados a pedido das entrevistadas<\/p>\n<p>[Reportagem e ilustra\u00e7\u00e3o: Revista Marie Claire]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reportagem da revista Marie Claire ouviu mulheres petroleiras que denunciam piora das condi\u00e7\u00f5es de trabalho com a pandemia, al\u00e9m da luta constante contra o ass\u00e9dio. 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