{"id":43100,"date":"2024-01-03T07:19:01","date_gmt":"2024-01-03T10:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/?p=43100"},"modified":"2023-12-29T14:00:22","modified_gmt":"2023-12-29T17:00:22","slug":"desafios-globais-para-a-transicao-energetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/desafios-globais-para-a-transicao-energetica\/","title":{"rendered":"Desafios Globais para a Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-43100-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Desafios-Globais-para-a-Transicao-Energetica.mp3?_=1\" \/><source type=\"audio\/ogg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Desafios-Globais-para-a-Transicao-Energetica.ogg?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Desafios-Globais-para-a-Transicao-Energetica.mp3\">https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Desafios-Globais-para-a-Transicao-Energetica.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no Brasil deve ser discutida em amplos debates. J\u00e1 est\u00e1 claro que n\u00e3o existe apenas uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s a Confer\u00eancia do Clima de Paris, a chamada COP 21 da ONU, em 2015, a \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d tornou-se tema relevante no debate global, j\u00e1 que o medo em rela\u00e7\u00e3o ao clima \u00e9 o seu principal motivador. O que se almeja \u00e9, de forma resumida, manter o aumento da temperatura m\u00e9dia da Terra a menos de 2\u00baC (ou 1,5\u00baC) acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais. Espera-se evitar que fen\u00f4menos clim\u00e1ticos como ondas de calor, inunda\u00e7\u00f5es costeiras, chuvas torrenciais, inc\u00eandios florestais e furac\u00f5es, tornem-se mais frequentes entre tantas outras preocupa\u00e7\u00f5es envolvidas na chamada mudan\u00e7a clim\u00e1tica atual.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica amea\u00e7a \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o atual e as futuras, observam-se graves quadros de desigualdades sociais crescentes, de vulnerabilidade de povos e minorias, guerras, pandemias e, sobretudo, um aumento cont\u00ednuo na concentra\u00e7\u00e3o de renda e de riqueza [1]. Em um discurso para \u201csalvar o Planeta\u201d, \u00e9 contradit\u00f3rio a observa\u00e7\u00e3o do aumento do fosso entre \u201cN\u00f3s e Eles\u201d. N\u00e3o existe uma humanidade de solidariedade, mas sim uma humanidade baseada no lucro, no uso abusivo da for\u00e7a e da repress\u00e3o. Al\u00e9m disso, no futuro o desemprego em massa s\u00f3 tende a aumentar, como afirma o historiador Yuval Noah Harari [2].<\/p>\n<p><em>\u201cPela primeira vez na hist\u00f3ria, a automa\u00e7\u00e3o pode representar uma onda de desemprego em massa, gra\u00e7as aos avan\u00e7os da Intelig\u00eancia Artificial (IA). As pessoas ter\u00e3o que se acostumar a aprender novas habilidades e a se reinventar ao longo da vida se n\u00e3o quiserem fazer parte de uma nova classe social, a dos in\u00fateis.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O jornalista ingl\u00eas Simon Reynolds criou o termo \u201cretromania\u201d para designar a busca obsessiva da cultura pop atual com o retr\u00f4. O presente se apresenta com enormes incertezas: clim\u00e1ticas, sociais e pol\u00edticas. No passado, nos anos 1960, os jovens tinham como lema \u201cPaz e Amor\u201d, e na atualidade a \u00fanica certeza \u00e9 que vivemos uma modernidade l\u00edquida [3]. Ao que parece o passado \u00e9 a forma mais segura de ser, pois ele \u00e9 para sempre.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que pensam pessoas ing\u00eanuas, que abdicam, em momento cr\u00edtico da humanidade, da faculdade do pensar, o tema \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d \u00e9 mais complexo do que se imaginava e o debate em torno do tema \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio &#8220;Shaping a Living Roadmap for Energy Transition&#8221; [4], produzido pelo International Energy Forum com a S&amp;P Global Commodity Insights como principal parceiro de conhecimento, conclui que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica seguir\u00e1 caminhos n\u00e3o lineares e envolver\u00e1, na verdade, m\u00faltiplas transi\u00e7\u00f5es em diferentes regi\u00f5es do planeta. O que de fato \u00e9 preocupante \u00e9 uma forma de pensar puramente baseada no medo, que nos impede de analisar criticamente quest\u00f5es que se relacionam diretamente com a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Cada regi\u00e3o do planeta tem uma realidade diferente. Por exemplo, os pa\u00edses em desenvolvimento foram os que menos contribu\u00edram para a situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica atual e geram emiss\u00f5es de gases do efeito estufa per capita bem mais baixas que os pa\u00edses ricos [5]. Logo, esses pa\u00edses, que t\u00eam necessidades sociais urgentes, precisam de fontes energ\u00e9ticas prim\u00e1rias confi\u00e1veis e com custo relativo menores.<\/p>\n<p>De acordo com o historiador Daniel Yergin, especialista em Energia, \u201cse a seguran\u00e7a energ\u00e9tica \u00e9 o primeiro desafio da transi\u00e7\u00e3o, o tempo \u00e9 o segundo&#8230; cada uma das transi\u00e7\u00f5es anteriores se desenrolou ao longo de um s\u00e9culo ou mais, e nenhuma foi o tipo de transi\u00e7\u00e3o atualmente prevista\u201d [6]. O especialista analisa que transi\u00e7\u00f5es do passado estavam relacionadas mais a fatores tecnol\u00f3gicos e econ\u00f4micos. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica atual est\u00e1 muito mais relacionada a fatores pol\u00edticos ligados aos riscos clim\u00e1ticos e est\u00e1 negligenciando quest\u00f5es fundamentais, como seguran\u00e7a energ\u00e9tica, intermit\u00eancia, efici\u00eancia, custo, e densidade energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Em meio a esse conjunto de decis\u00f5es globais cada pa\u00eds precisa entender suas necessidades, avaliando tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto social o que ser\u00e1 melhor para o seu futuro. Alguns desafios globais podem ser apontados para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica: seguran\u00e7a energ\u00e9tica, tempo para a transi\u00e7\u00e3o, pa\u00edses em desenvolvimento, minerais e impactos macroecon\u00f4micos.<\/p>\n<h2><strong>Seguran\u00e7a Energ\u00e9tica<\/strong><\/h2>\n<p>Devido a perturba\u00e7\u00f5es causadas por cen\u00e1rios de guerras, na regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio e na Ucr\u00e2nia, a seguran\u00e7a energ\u00e9tica global voltou a ser uma grande prioridade para os pa\u00edses. De fato, seguran\u00e7a energ\u00e9tica significa a garantia de fornecimento energ\u00e9tico adequado e cont\u00ednuo a pre\u00e7os razo\u00e1veis. Tamb\u00e9m tendo em vista as dificuldades econ\u00f4micas atuais e o risco geopol\u00edtico crescente.<\/p>\n<p>De acordo com a Ag\u00eancia Internacional de Energia [7], seguran\u00e7a energ\u00e9tica significa a \u201coferta e disponibilidade de servi\u00e7os energ\u00e9ticos a todo momento, em quantidade suficiente e a pre\u00e7os acess\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel), \u201cenergia intermitente caracteriza um recurso energ\u00e9tico que, para fins de convers\u00e3o em energia el\u00e9trica pelo sistema de gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ser armazenado em sua forma original\u201d. Essa quest\u00e3o afeta a seguran\u00e7a energ\u00e9tica, pois a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade n\u00e3o estar\u00e1 dispon\u00edvel 24h por dia.<\/p>\n<p>O que hoje se associa a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o das energias renov\u00e1veis, mais especificamente solar e e\u00f3lica, e a substitui\u00e7\u00e3o dos carros convencionais pelos carros el\u00e9tricos. A gera\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel, em larga escala, utilizando usinas e\u00f3licas e solares, tem a limita\u00e7\u00e3o do fornecimento intermitente de energia, produzindo energia apenas 25% a 34% do ano, pois depende de fatores ambientais que s\u00e3o vari\u00e1veis ao longo do dia e do ano [8].<\/p>\n<p>Existe a necessidade de se manter a curto prazo um modo de vida que depende demasiadamente dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, que permanecer\u00e3o por muitas d\u00e9cadas a desempenhar o seu papel fundamental. A despeito dos esfor\u00e7os pol\u00edticos envolvendo a quest\u00e3o ambiental, no sentido de uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica r\u00e1pida, essa transi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 possivelmente mais demorada e complexa do que se imagina.<\/p>\n<p>Joe Biden, presidente dos EUA, e outros l\u00edderes mundiais, incentivam as empresas nacionais a aumentar a sua produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. David Swensen, diretor de investimentos de Yale, afirmou recentemente: \u201cse par\u00e1ssemos de produzir combust\u00edveis f\u00f3sseis hoje, todos morrer\u00edamos. N\u00e3o ter\u00edamos comida, n\u00e3o ter\u00edamos transporte, n\u00e3o ter\u00edamos ar-condicionado, n\u00e3o ter\u00edamos roupas. O problema de verdade \u00e9 o consumo, e todos n\u00f3s somos consumidores\u201d [6].<\/p>\n<p>O Secret\u00e1rio-Geral do IEF (International Energy Forum), Joseph McMonigle, fez afirma\u00e7\u00f5es [6] sobre as dificuldades da transi\u00e7\u00e3o atual, que tem como objetivo atingir a neutralidade de carbono em 2050, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>&#8220;As expectativas de uma transi\u00e7\u00e3o global linear foram abaladas \u00e0 medida que os objetivos clim\u00e1ticos coexistem com prioridades em torno da seguran\u00e7a energ\u00e9tica, do acesso \u00e0 energia e da acessibilidade dos pre\u00e7os. Em vez disso, \u00e9 necess\u00e1ria uma abordagem multidimensional que inclua diferentes situa\u00e7\u00f5es em diferentes partes do mundo, refletindo pontos de partida variados e uma diversidade de abordagens pol\u00edticas, e que seja equitativa.&#8221;<\/p>\n<h2><strong>Tempo para a Transi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c9 preocupante pensarmos que transi\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas anteriores levaram s\u00e9culos para de fato ocorrerem e n\u00e3o d\u00e9cadas. \u00c9 poss\u00edvel se estabelecer diversas periodiza\u00e7\u00f5es quanto a eras energ\u00e9ticas da humanidade.<\/p>\n<p>Em sociedades tradicionais e antigas o uso da energia animada, atrav\u00e9s dos m\u00fasculos de animais e de seres humanos, era a mais predominante. Ainda hoje esse tipo de for\u00e7a motriz \u00e9 importante em regi\u00f5es mais pobres da \u00c1frica e da \u00c1sia. Entretanto, j\u00e1 em sociedades antigas duas classes de for\u00e7as motrizes inanimadas j\u00e1 eram utilizadas, as rodas d\u2019\u00e1gua e os moinhos de vento.<\/p>\n<p>A primeira transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica come\u00e7ou na Gr\u00e3-Bretanha, no s\u00e9culo XIII, com a substitui\u00e7\u00e3o da madeira pelo carv\u00e3o. A destrui\u00e7\u00e3o das florestas tornou a madeira um produto escasso, e o carv\u00e3o passou a ser utilizado para aquecimento em Londres. A vantagem do carv\u00e3o era a sua disponibilidade e pre\u00e7o, n\u00e3o o desempenho superior, passando a ser muito utilizado com a introdu\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina a vapor, assim como, para o aquecimento de resid\u00eancias e o cozimento de alimentos. Apenas em 1900 o carv\u00e3o passou a suprir metade da demanda de energia mundial<\/p>\n<p>A lenta substitui\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o pelo petr\u00f3leo, com o advento dos motores a combust\u00e3o interna al\u00e9m de diversos outros usos, representa a segunda transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Entretanto, o petr\u00f3leo substituiu o carv\u00e3o como fonte prim\u00e1ria de energia mais utilizada apenas na d\u00e9cada de 1960. Por\u00e9m, \u00e9 importante mencionar que, o consumo de carv\u00e3o mundial em 2022 foi 3 vezes maior do que se consumia nos anos 1960.<\/p>\n<p>Na verdade, existe uma natureza evolucion\u00e1ria das transi\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas [9], onde uma fonte de energia n\u00e3o substitui completamente outra. Aspectos como funcionalidade, acessibilidade e custos explicam a in\u00e9rcia envolvida nestas transi\u00e7\u00f5es. Em longos per\u00edodos, novos combust\u00edveis e for\u00e7as motrizes, v\u00e3o sendo disponibilizados para as sociedades e avaliados quanto a esses aspectos. Existem diversos exemplos que mostram o quanto \u00e9 complexa a hist\u00f3ria da energia.<\/p>\n<p>As rodas d\u2019\u00e1gua romanas foram utilizadas pela primeira vez no s\u00e9culo I a.C. Entretanto, elas s\u00f3 se difundiram 500 anos depois. Al\u00e9m disso, como mostra Finley [10], seu uso era limitado \u00e0 moagem de gr\u00e3os.<br \/>\nNo s\u00e9culo XVI, a navega\u00e7\u00e3o por barcos a vela, permitiram a ascens\u00e3o do ocidente. Mas, em 1790, gal\u00e9s suecas com canh\u00f5es pesados, movidas a m\u00fasculos humanos, foram usadas para destruir a frota russa em Svensksund [11].<\/p>\n<p>Na segunda guerra mundial, navios da classe Liberty (EC2), os cargueiros dos Estados Unidos, n\u00e3o eram movidos por novos e eficientes motores a diesel, mas sim pelos antigos motores a vapor alimentados por caldeiras a \u00f3leo [12].<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica atual n\u00e3o \u00e9 motivada pelas mesmas raz\u00f5es das duas transi\u00e7\u00f5es anteriores, mas sim por decis\u00f5es pol\u00edticas relacionadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O objetivo \u00e9 atingir emiss\u00f5es globais l\u00edquidas nulas at\u00e9 2050. O historiador e especialista em energia, Daniel Yergin, se mostra intrigado [6] com os prazos diferenciados estabelecidos por v\u00e1rios pa\u00edses.<br \/>\n&#8220;O que me intriga no objetivo de 2050 \u00e9 que o objetivo da China \u00e9 2060. O objetivo da Indon\u00e9sia \u00e9 2060. A Nig\u00e9ria \u00e9 o pa\u00eds mais populoso de \u00c1frica &#8211; o seu objetivo \u00e9 2060. O objetivo da \u00cdndia \u00e9 2070. Estamos a falar de mais de metade das emiss\u00f5es mundiais que n\u00e3o t\u00eam como objetivo 2050&#8230; A China \u00e9 respons\u00e1vel por talvez metade do crescimento da procura global em 2023. Metade da energia e\u00f3lica e solar do mundo est\u00e1 na China. Mas tamb\u00e9m j\u00e1 disseram que a seguran\u00e7a energ\u00e9tica tem prioridade sobre os objetivos clim\u00e1ticos&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar do objetivo de redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de carbono at\u00e9 2060, a China continua aumentando sua procura por energia, em especial o carv\u00e3o, petr\u00f3leo, e g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o se sabe o resultado efetivo da transi\u00e7\u00e3o nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, assim como n\u00e3o h\u00e1 um consenso sobre o tempo para a transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><strong>Minerais<\/strong><\/h2>\n<p>Para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica se viabilizar ser\u00e1 necess\u00e1ria uma produ\u00e7\u00e3o mundial enorme de minerais. Esses materiais devem ser produzidos atrav\u00e9s de processos industriais mais custosos e que sacrificam o meio ambiente e a sa\u00fade das pessoas. Al\u00e9m disso, a produ\u00e7\u00e3o desses materiais tamb\u00e9m depende de energias f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>V\u00e1rios metais raros ser\u00e3o necess\u00e1rios para que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica seja vi\u00e1vel. A Ag\u00eancia Internacional de Energia [7] estima que os materiais mais cr\u00edticos para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica s\u00e3o o l\u00edtio, n\u00edquel, cobalto, cobre, grafite e as terras raras. Os elementos de terras raras incluem lant\u00e2nio, dispr\u00f3sio, t\u00e9rbio, neod\u00edmio, c\u00e9rio, h\u00f3lmio, \u00e9rbio, sam\u00e1rio, eur\u00f3pio, esc\u00e2ndio, it\u00e9rbio, lut\u00e9cio, t\u00falio, prom\u00e9cio e gadol\u00ednio. A maioria \u00e9 radioativa e dif\u00edcil de extrair.<\/p>\n<p>Os projetos de minera\u00e7\u00e3o para extrair esses metais podem levar em m\u00e9dia 16 anos para entrar em opera\u00e7\u00e3o. Consequentemente, espera-se que essa escassez aumente na pr\u00f3xima d\u00e9cada [13]. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica requer quantidades significativas de metais como cobre, o n\u00edquel, o cobalto e o l\u00edtio [13]. A procura de L\u00edtio poder\u00e1 aumentar mais de 40 vezes [6] at\u00e9 2040, seguido do grafite, do cobalto e do n\u00edquel (cerca de 20-25 vezes).<\/p>\n<p>As tecnologias verdes n\u00e3o cont\u00eam apenas metais raros, mas tamb\u00e9m consistem em metais mais abundantes, como a\u00e7o, alum\u00ednio e cobre. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica requer muito cobre, em 30 anos teremos que produzir a mesma quantidade de cobre produzida desde o in\u00edcio da humanidade.<br \/>\nOutra quest\u00e3o a ser considerada \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o de muitos minerais relacionados a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica est\u00e1 mais concentrada geograficamente do que a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo ou o g\u00e1s natural [7].<\/p>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio sobre o papel dos minerais cr\u00edticos para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, de 2022, da Ag\u00eancia Internacional de Energia [7], poder\u00e1 haver escassez de l\u00edtio, n\u00edquel e importantes elementos de terras raras, como neod\u00edmio e dispr\u00f3sio, nos pr\u00f3ximos anos. As preocupa\u00e7\u00f5es com os recursos se referem tamb\u00e9m com a qualidade. Nos \u00faltimos anos, a qualidade do min\u00e9rio de diversas mat\u00e9rias-primas continuou a diminuir. Por exemplo, o grau m\u00e9dio do min\u00e9rio de cobre no Chile diminuiu 30% nos \u00faltimos 15 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 demasiadamente complexo a reciclagem dos materiais envolvidos na tecnologia verde. Pode-se ter o um problema equivalente ao do lixo nuclear. Na verdade, o que \u00e9 extra\u00eddo custa menos do que um caro processo de reciclagem. Al\u00e9m disso, certos materiais nem sabemos como recicl\u00e1-los.<br \/>\nDeve-se interrogar se existem recursos suficientes para viabilizar uma suposta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica completa. Atualmente, os dados revelam uma lacuna iminente entre as ambi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas refor\u00e7adas do mundo e a disponibilidade de minerais cr\u00edticos que s\u00e3o essenciais para concretizar essas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2><strong>Pa\u00edses em Desenvolvimento<\/strong><\/h2>\n<p>Historicamente os pa\u00edses desenvolvidos s\u00e3o respons\u00e1veis por cerca de 70% dos gases do efeito estufa emitidos [14]. Ao longo do s\u00e9culo XX desenvolveram suas economias e popula\u00e7\u00f5es muito em parte devido ao amplo acesso \u00e0 energia de relativo baixo custo e qualidade e disponibilidade elevada, mais especificamente, atrav\u00e9s da depend\u00eancia de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>Daniel Yergin, em seu mais recente livro, The New Map [6], descreve detalhadamente um ponto importante de disc\u00f3rdia atual entre o Norte Global e o Sul Global. Os pa\u00edses mais ricos influenciam organiza\u00e7\u00f5es internacionais para que se estabele\u00e7a pol\u00edticas que negam aos pa\u00edses em desenvolvimento a possibilidade de produzirem energia a custo acess\u00edvel e dispon\u00edvel para desenvolverem suas sociedades, carentes de recursos, que em geral consomem muito menos energia per capita.<\/p>\n<p>O Ministro de Energia indiano fez uma afirma\u00e7\u00e3o [6] que mostra uma perspectiva diferente sobre a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica: &#8220;Na \u00cdndia, parte da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica consiste em as pessoas que queimam res\u00edduos ou madeira utilizarem GPL ou g\u00e1s natural para os substituir.&#8221;.<\/p>\n<p>Cada pa\u00eds tem, portanto, uma realidade diferente, uma matriz energ\u00e9tica \u00fanica. O tema transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica deve ser debatida exaustivamente pelas sociedades, em especial nos pa\u00edses em desenvolvimento. \u00c9 necess\u00e1rio questionar certas resolu\u00e7\u00f5es internacionais que visam restringir o pr\u00f3prio uso de energia de pa\u00edses carentes. Os problemas sociais, fruto de acentuada desigualdade social mundial, n\u00e3o pode ser esquecida em meio a resolu\u00e7\u00f5es para uma r\u00e1pida transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz sentido pa\u00edses em desenvolvimento sacrificarem o desenvolvimento de suas popula\u00e7\u00f5es para, de certa forma, \u201cpagar a conta\u201d por todas as emiss\u00f5es que os pa\u00edses desenvolvidos lan\u00e7aram na atmosfera durante um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Por \u00f3bvio, ser\u00e1 de fato necess\u00e1rio que os pa\u00edses em desenvolvimento, tenham acesso a hidrocarbonetos para melhorar o IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano) de seus habitantes antes que eventualmente alterem as suas trajet\u00f3rias de emiss\u00f5es.<\/p>\n<h2><strong>Macroeconomia<\/strong><\/h2>\n<p>Para se atingir os objetivos de neutralidade de carbono at\u00e9 2050 a Europa deve reduzir suas emiss\u00f5es per capita at\u00e9 o n\u00edvel indiano. Diversos pa\u00edses j\u00e1 anunciaram mecanismos de algum tipo de imposto ou precifica\u00e7\u00e3o de carbono. As iniciativas de forma geral, como o Inflation Reduction Act e o RePowerEU, se mostram insuficientes para uma transi\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida [6].<\/p>\n<p>O custo para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global \u00e9 estimado em 100 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, mais caro do que a maioria pode suportar. A crise econ\u00f4mica se intensifica na Europa e em diversos pa\u00edses. Os projetos na \u00e1rea da energia e\u00f3lica offshore geram diversos problemas, pois \u00e9 cara e dif\u00edcil de implementar. Ap\u00f3s uma falsa promessa de uma eletricidade mais barata, a realidade \u00e9 que os custos para o consumidor final, envolvidos nesse tipo de energia, podem aumentar [15].<\/p>\n<p>Algumas alternativas como o mercado do carbono, uma abordagem de mercado \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, n\u00e3o est\u00e3o de fato contribuindo para uma diminui\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. Na verdade, funcionam como um desincentivo \u00e0s tecnologias hipocarb\u00f4nicas, pois \u00e9 mais barato comprar licen\u00e7as para poluir.<\/p>\n<p>Ursula von der Leyen, presidente da Comiss\u00e3o Europeia, declarou recentemente que pretende transformar a Europa no primeiro continente neutro em carbono do mundo. Entretanto, mesmo para pa\u00edses do ocidente h\u00e1 incertezas quanto aos impactos econ\u00f4micos da uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Um artigo do Peterson Institute for International Economics explica que n\u00e3o se sabe se os efeitos de uma transforma\u00e7\u00e3o em uma economia com impacto neutro no clima melhorar\u00e3o ou prejudicar\u00e3o o crescimento. Ainda que defenda que a prosperidade depende da descarboniza\u00e7\u00e3o, o artigo afirma que nos pr\u00f3ximos 10 anos a descarboniza\u00e7\u00e3o reduzir\u00e1 o potencial econ\u00f4mico [6].<\/p>\n<p>Declara\u00e7\u00f5es que afirmam que a realoca\u00e7\u00e3o dos investimentos sairia de empresas de energia e financiariam a \u201cdescarboniza\u00e7\u00e3o\u201d da economia parecem incorretas. Pois, a maior parte das reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural do mundo pertencem a governos nacionais, e n\u00e3o a acionistas na Gr\u00e3-Bretanha e nos Estados Unidos. As empresas podem fazer investimentos pontuais, mas n\u00e3o o suficiente para tal transi\u00e7\u00e3o global. Os governos nacionais precisam direcionar os seus recursos e investimentos para contribuir com a melhora da qualidade de vida de suas popula\u00e7\u00f5es, principalmente em pa\u00edses em desenvolvimento. Gastos que implicam em um aumento no valor dos servi\u00e7os oferecidos a sociedade, como a energia el\u00e9trica, seriam obviamente focos de cr\u00edticas e de questionamentos.<br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, a mudan\u00e7a de uso da terra e floresta, setor que compreende principalmente o desmatamento, sobretudo na Amaz\u00f4nia, corresponde a 49% das emiss\u00f5es de GEE (Gases do Efeito Estufa), e o setor agropecu\u00e1rio a 24% das emiss\u00f5es em 2021. Esses setores s\u00e3o historicamente os maiores respons\u00e1veis pelas emiss\u00f5es de GEE no pa\u00eds. Os dois setores juntos, que se referem a atividade agropecu\u00e1ria em sentido amplo, representam 73% de toda a polui\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica brasileira. Apenas 18% das emiss\u00f5es se devem ao setor de energia, e esse setor tem fundamental import\u00e2ncia para o crescimento da economia do pa\u00eds e a gera\u00e7\u00e3o de emprego. O Brasil j\u00e1 tem uma das matrizes energ\u00e9ticas mais limpas do mundo, com 45% de fontes renov\u00e1veis em 2023 [5].<\/p>\n<p>Por outro lado, o pa\u00eds tem uma das maiores desigualdades sociais do mundo, e essa desigualdade \u00e9 uma das causas da pobreza na realidade brasileira. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no Brasil deve ser discutida em amplos debates. J\u00e1 est\u00e1 claro que n\u00e3o existe apenas uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global, mas sim transi\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas, no plural. O pa\u00eds tem um grande potencial na \u00e1rea de petr\u00f3leo e g\u00e1s que representa uma oportunidade para o desenvolvimento da sociedade.<\/p>\n<h2>REFER\u00caNCIAS<\/h2>\n<p>[1] Chancel, L., Piketty, T., Saez, E., Zucman, G. et al. World Inequality Report 2022, World Inequality Lab.<\/p>\n<p>[2] HARARI, Yuval Noah. 21 li\u00e7\u00f5es para o s\u00e9culo 21. S\u00e3o Paulo. Editora: Companhia das Letras, 2018.<br \/>\n[3] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade l\u00edquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.<br \/>\n[4] Shaping a Living Roadmap for Energy Transition. A report by the International Energy Forum and S&amp;P Global Commodity Insights. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.ief.org\/focus\/ief-reports\/gesi-shaping-a-living-roadmap-for-energy-transition&gt;. Acesso em: novembro de 2023.<br \/>\n[5] G. Sim\u00f5es, \u201cOS GASES DE UM EFEITO ANTIDESENVOLVIMENTISTA\u201d, 2023.<br \/>\n[6] The New Map.: Energy, Climate, and the Clash of Nations. By Daniel Yergin.New York: Penguin, 2021 Press. 492 pp, 2020.<br \/>\n[7] IEA. International Energy Agency report. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.iea.org&gt;. Acesso em: novembro de 2023.<br \/>\n[8] P. Bonifas e T. J. Considine, \u201cThe Limits to Green Energy,\u201d 2023.<br \/>\n[9] Melosi, M.V. 1982. Energy Transitions in the Nineteenth-Century Economy. In Energy and Transport, ed. G. H. Daniels and M. H. Rose, 55-67. Beverly Hills, CA: Sage Publications.<br \/>\n[10] Finley, M.I. 1965. Tecnichal innovation and economic progress in the ancient world. Economic History Review 18:29-45.<br \/>\n[11] Martin, C., and G. Parker. 1988. The Spanish Armada. London: Hamish Hamilton.<br \/>\n[12] Elphick, P. 2001. Liberty: The Ships That Won the War. Annapolis, MD: Naval Institute Press.<br \/>\n[13] Pescatori, Andreas and Boer, Lukas and Stuermer, Martin, Energy Transition Metals (October 1, 2021). IMF Working Paper No. 2021\/243, Available at SSRN: https:\/\/ssrn.com\/abstract=4026470.<br \/>\n[14] Hickel J, O&#8217;Neill DW, Fanning AL, Zoomkawala H. National responsibility for ecological breakdown: a fair-shares assessment of resource use, 1970-2017. Lancet Planet Health. 2022 Apr;6(4):e342-e349. doi: 10.1016\/S2542-5196(22)00044-4. PMID: 35397222.<br \/>\n[15] Is the Global Energy transition simply too expensive. https:\/\/oilprice.com\/Energy\/Energy-General\/Is-the-Global-Energy-Transition-Simply-Too-Expensive.html.<\/p>\n<p><em>Autor:<\/em><br \/>\n<em>Gustavo Jos\u00e9 Sim\u00f5es<\/em><br \/>\n<em>Engenheiro Mec\u00e2nico, Doutor em Engenharia pela UFRJ e Historiador.<\/em><br \/>\n<a href=\"https:\/\/gustavosimoes23.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>https:\/\/gustavosimoes23.blogspot.com\/<\/em><\/a><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/aepet.org.br\/artigo\/desafios-globais-para-a-transicao-energetica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/aepet.org.br\/artigo\/desafios-globais-para-a-transicao-energetica\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no Brasil deve ser discutida em amplos debates. 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