{"id":48187,"date":"2026-06-10T12:36:40","date_gmt":"2026-06-10T15:36:40","guid":{"rendered":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/?p=48187"},"modified":"2026-06-10T12:36:40","modified_gmt":"2026-06-10T15:36:40","slug":"capitalismo-sem-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/capitalismo-sem-povo\/","title":{"rendered":"Capitalismo sem povo"},"content":{"rendered":"<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-48187-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Capitalismo-sem-povo.mp3?_=1\" \/><source type=\"audio\/ogg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Capitalismo-sem-povo.ogg?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Capitalismo-sem-povo.mp3\">https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Capitalismo-sem-povo.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>Por Marcio Pochmann*<\/em><\/p>\n<p>O neoliberalismo no Brasil aprofundou a expans\u00e3o do \u201ccircuito inferior\u201d da economia e, ao mesmo tempo, reduziu relativamente a capacidade integradora do \u201ccircuito superior\u201d produtivo. A moderniza\u00e7\u00e3o neoliberal mostrou-se regressiva, pois sem eliminar o atraso, terminou por expandi-lo, transformando-o em modelo funcional da pr\u00f3pria acumula\u00e7\u00e3o rentista.<\/p>\n<p>Conforme originalmente evidenciado por Milton Santos, o capitalismo urbano-industrial brasileiro havia constru\u00eddo um n\u00facleo econ\u00f4mico din\u00e2mico e crescente, capaz de absorver parcelas ampliadas da popula\u00e7\u00e3o. Entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1980, apesar das enormes desigualdades, o Brasil conseguiu, por meio do avan\u00e7o do setor industrial, das empresas estatais, da infraestrutura, dos bancos, da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e dos servi\u00e7os organizados, integrar enormes contingentes da classe trabalhadora ao in\u00e9dito emprego assalariado com direitos sociais e trabalhistas.<\/p>\n<p>Um novo e moderno \u201ccircuito superior\u201d da economia cresceu apoiado na consolida\u00e7\u00e3o da nova sociedade urbana e industrial. Simultaneamente, a predomin\u00e2ncia generalizada do \u201ccircuito inferior\u201d, marcada pela subsist\u00eancia, por pequenos neg\u00f3cios de baixa produtividade, por reduzida modernidade tecnol\u00f3gica e pela oferta de baixos rendimentos aos trabalhadores, foi sendo significativamente contida.<\/p>\n<p>Mas com a inflex\u00e3o neoliberal dos anos 1990, parte dessa engrenagem superior do circuito econ\u00f4mico do capitalismo brasileiro foi sendo enfraquecida, quando n\u00e3o totalmente desmontada. A abertura comercial acelerada, a desregula\u00e7\u00e3o da financeiriza\u00e7\u00e3o, as privatiza\u00e7\u00f5es, a terceiriza\u00e7\u00e3o, a flexibiliza\u00e7\u00e3o trabalhista e a desindustrializa\u00e7\u00e3o reduziram a capacidade do setor moderno de gerar emprego de massa com maior produtividade e melhores rendimentos.<\/p>\n<p>O resultado foi paradoxal. A economia nacional tornou-se mais integrada ao capitalismo global, por\u00e9m crescentemente menos capaz de integrar socialmente a sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o a empregos decentes, compat\u00edvel com a gera\u00e7\u00e3o de um novo sujeito coletivo sobrante aso requisitos do capitalismo sem povo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o circuito superior da economia n\u00e3o desapareceu totalmente. Mas tornou-se mais sofisticado tecnologicamente, mais financeirizado e mais concentrado, empregando proporcionalmente cada vez menos trabalhadores. Os grandes bancos, plataformas digitais, agroneg\u00f3cio altamente mecanizado, log\u00edstica automatizada e cadeias globais produzem um certo dinamismo econ\u00f4mico assentado em baixa absor\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o excedente humano urbano foi sendo empurrado para um circuito inferior ampliado pela informalidade, \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d, microempreendedorismo de sobreviv\u00eancia, pequenos neg\u00f3cios de baix\u00edssima produtividade, microtrabalho intermitente, com\u00e9rcio ambulante, presta\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de servi\u00e7os e ocupa\u00e7\u00f5es sem prote\u00e7\u00e3o social. O desemprego apareceu cada vez mais oculto por estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia \u00e0 margem de um capitalismo sem povo.<\/p>\n<p>A periferia urbana tornou-se um enorme espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da auto-ocupa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. O neoliberalismo transformou o desempregado em \u201cempreendedor de si mesmo\u201d, deslocando para o indiv\u00edduo os riscos da sobreviv\u00eancia socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Nesse contexto, uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica importante encontra-se em curso. Ap\u00f3s meio s\u00e9culo de constru\u00e7\u00e3o da sociedade urbana e industrial, o circuito inferior deixou de ser marginal para se tornar estruturalmente dominante nas vastas \u00e1reas metropolitanas brasileiras. Em muitos bairros populares, a economia cotidiana gira mais em torno da informalidade e da sobreviv\u00eancia do que do emprego formal cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a tecnologia digital n\u00e3o eliminou a precariedade, pois frequentemente tem a reorganizado em torno dos aplicativos que controlam trabalhadores sem v\u00ednculo, das plataformas que extraem renda de microempreendedores, dos algoritmos que administram a informalidade, do consumo popular dependente do cr\u00e9dito caro e do endividamento ampliado.<\/p>\n<p>Milton Santos percebeu precocemente que a globaliza\u00e7\u00e3o desregulada produziria uma moderniza\u00e7\u00e3o conservadora e concentradora, com cidades altamente conectadas, mas socialmente fragmentadas. O neoliberalismo aprofundou exatamente esse processo, produzindo um capitalismo avan\u00e7ado nos fluxos financeiros e tecnol\u00f3gicos, mas regressivo nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e na integra\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O desafio do Brasil, ao ingressar no segundo quarto do s\u00e9culo XXI, \u00e9 o de enfrentar uma economia moderna quase exclusiva no topo e uma massa crescente vivendo em amplo circuito inferior, agora digitalizado, financeirizado e permanentemente precarizado. Trata-se de uma enorme contradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que parecia parcialmente superada durante a industrializa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX, quando a perman\u00eancia estrutural da massa sobrante produzida pelo capitalismo perif\u00e9rico estava em consider\u00e1vel redu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A velha massa inorg\u00e2nica descrita por Caio Prado J\u00fanior no passado da sociedade agr\u00e1ria brasileira e que parecia desaparecer com a industrializa\u00e7\u00e3o nacional, passou a ser reconfigurada pela financeiriza\u00e7\u00e3o digital do capitalismo neoliberal contempor\u00e2neo em uma nova sociedade de servi\u00e7os hiperconectada na era digital. Hoje, o entregador por aplicativo, a cozinheira informal do bairro, o camel\u00f4 conectado por pix, o motorista endividado, o vendedor online sem prote\u00e7\u00e3o social e o trabalhador multitarefa da periferia representam a in\u00e9dita morfologia da quest\u00e3o social brasileira.<\/p>\n<p>O neoliberalismo produziu algo historicamente perverso. Uma sociedade altamente conectada tecnologicamente, mas profundamente precarizada economicamente e desorganizada socialmente. O pa\u00eds ampliou o consumo digital sem universalizar a prote\u00e7\u00e3o trabalhista. Expandiu o acesso financeiro sem democratizar a riqueza. Modernizou os meios de circula\u00e7\u00e3o enquanto precarizava as formas de vida.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas garantir direitos ao trabalhador fordista cl\u00e1ssico, cuja centralidade diminuiu com a desindustrializa\u00e7\u00e3o. O desafio contempor\u00e2neo \u00e9 proteger socialmente a multid\u00e3o fragmentada do capitalismo de plataforma, da informalidade urbana e da economia de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o social constru\u00edda no s\u00e9culo XX estava organizada em torno do emprego formal na sociedade urbana e industrial. Mas o capitalismo neoliberal perif\u00e9rico dissolveu parcialmente essa base material em plena sociedade de servi\u00e7os. A consequ\u00eancia \u00e9 brutal, com parcela crescente da classe trabalhadora ocupada sem acessar plenamente os direitos concebidos para uma estrutura econ\u00f4mica que foi abandonada.<\/p>\n<p>O novo direito coletivo precisa ser repensado. A prote\u00e7\u00e3o universal deve ser desvinculada do emprego tradicional, com renda b\u00e1sica, seguridade para trabalhadores de plataforma, regula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, redu\u00e7\u00e3o da jornada, novas formas de organiza\u00e7\u00e3o sindical, prote\u00e7\u00e3o ao trabalho fragmentado, democratiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e reconstru\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva nacional.<\/p>\n<p><em>*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, \u00e9 o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcio Pochmann* O neoliberalismo no Brasil aprofundou a expans\u00e3o do \u201ccircuito inferior\u201d da economia e, ao mesmo tempo, reduziu relativamente a capacidade integradora do \u201ccircuito superior\u201d produtivo. 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