{"id":48309,"date":"2026-07-10T12:51:05","date_gmt":"2026-07-10T15:51:05","guid":{"rendered":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/?p=48309"},"modified":"2026-07-10T12:51:05","modified_gmt":"2026-07-10T15:51:05","slug":"a-reinvencao-da-identidade-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/a-reinvencao-da-identidade-nacional\/","title":{"rendered":"A reinven\u00e7\u00e3o da identidade nacional"},"content":{"rendered":"<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-48309-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/A-reinvencao-da-identidade-nacional.mp3?_=1\" \/><source type=\"audio\/ogg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/A-reinvencao-da-identidade-nacional.ogg?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/A-reinvencao-da-identidade-nacional.mp3\">https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/A-reinvencao-da-identidade-nacional.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>Por Marcio Pochmann*<\/em><\/p>\n<p>A reinven\u00e7\u00e3o do Brasil no s\u00e9culo XXI demanda uma nova narrativa identit\u00e1ria que supere o consumo e a fragmenta\u00e7\u00e3o digital em prol de um projeto coletivo de na\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Toda grande transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica altera tamb\u00e9m a forma como um povo se reconhece. As identidades coletivas n\u00e3o surgem no vazio, nem dependem apenas de s\u00edmbolos, bandeiras ou discursos. Elas resultam do modo como a sociedade trabalha, produz, distribui riqueza e organiza a vida coletiva.<\/p>\n<p>Neste primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XXI, o Brasil atravessa uma profunda mudan\u00e7a de \u00e9poca. A antiga sociedade urbana e industrial vem cedendo lugar a uma nova sociedade de servi\u00e7os, hiperconectada, digitalizada e cada vez mais fragmentada. Nesse cen\u00e1rio, a pergunta central deixa de ser apenas como voltar e sustentar o crescimento. Passa a ser tamb\u00e9m sobre qual identidade nacional pode sustentar um novo projeto de pa\u00eds?<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o Brasil enfrenta uma transforma\u00e7\u00e3o dessa magnitude. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria nacional pode ser lida como a sucess\u00e3o de tr\u00eas formas de capitalismo, tr\u00eas modos de inser\u00e7\u00e3o na economia mundial e tr\u00eas grandes identidades coletivas.<\/p>\n<h2><strong>A na\u00e7\u00e3o inacabada e o capitalismo agr\u00e1rio-exportador da Rep\u00fablica Velha<\/strong><\/h2>\n<p>Durante a Rep\u00fablica Velha (1889-1930), o Brasil estava profundamente integrado \u00e0 ordem econ\u00f4mica liderada pela Inglaterra. O pa\u00eds ocupava uma posi\u00e7\u00e3o subordinada na divis\u00e3o internacional do trabalho, exportando produtos prim\u00e1rios e importando bens manufaturados modernos.<\/p>\n<p>O caf\u00e9, a borracha, o a\u00e7\u00facar e outros produtos agr\u00edcolas financiavam a acumula\u00e7\u00e3o das oligarquias, enquanto as mercadorias industriais brit\u00e2nicas abasteciam o mercado interno. A depend\u00eancia econ\u00f4mica produzia tamb\u00e9m fragilidade pol\u00edtica e identit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Brasil era um vasto territ\u00f3rio ainda pouco integrado, sem uma comunidade nacional plenamente constitu\u00edda. O povo estava praticamente ausente do sistema pol\u00edtico. O ex-escravizado, o trabalhador rural, o imigrante e as massas urbanas emergentes n\u00e3o eram reconhecidos como sujeitos da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A identidade coletiva era fragmentada, regional e olig\u00e1rquica. N\u00e3o existia um \u201cn\u00f3s\u201d nacional. Ele era bloqueado pelo dom\u00ednio de interesses regionais, v\u00ednculos locais, rela\u00e7\u00f5es familiares e pr\u00e1ticas patrimonialistas.<\/p>\n<h2><strong>A inven\u00e7\u00e3o do trabalhador brasileiro pelo projeto nacional-desenvolvimentista<\/strong><\/h2>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 inaugurou uma nova fase hist\u00f3rica, marcada pela moderniza\u00e7\u00e3o, ainda que conservadora, do capitalismo brasileiro. A crise da ordem liberal, aberta desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conviveu com a ascens\u00e3o dos Estados Unidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de principal pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial. Esse novo contexto abriu outra possibilidade hist\u00f3rica para o Brasil.<\/p>\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1980, o pa\u00eds construiu uma das experi\u00eancias mais bem-sucedidas de industrializa\u00e7\u00e3o tardia do mundo. Sob a lideran\u00e7a estadunidense no segundo p\u00f3s-guerra, o Brasil estruturou o Estado moderno e implementou a pol\u00edtica de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Com isso, reduziu sua depend\u00eancia de bens manufaturados externos e formou uma estrutura produtiva mais complexa.<\/p>\n<p>A entrada de empresas estadunidenses e europeias n\u00e3o significou apenas desnacionaliza\u00e7\u00e3o da economia. Ela tamb\u00e9m permitiu a montagem de um sistema industrial integrado, envolvendo siderurgia, petr\u00f3leo, qu\u00edmica, m\u00e1quinas, bens de capital, autom\u00f3veis, infraestrutura e servi\u00e7os modernos.<\/p>\n<p>O Brasil urbano e industrial produziu, assim, uma nova identidade nacional, assentada numa narrativa poderosa de pertencimento. O trabalhador industrial, o servidor p\u00fablico, o professor, o t\u00e9cnico, o oper\u00e1rio e o pequeno agricultor passaram a ser reconhecidos como parte de um projeto de pa\u00eds orientado pela industrializa\u00e7\u00e3o, pela urbaniza\u00e7\u00e3o e pela moderniza\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Ainda que incompleta e desigual, havia uma ideia compartilhada de futuro. Com Get\u00falio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), a industrializa\u00e7\u00e3o era compreendida como a inven\u00e7\u00e3o de um novo povo. Da\u00ed sua afirma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: \u201cHoje os trabalhadores est\u00e3o comigo no poder; amanh\u00e3 ser\u00e3o o pr\u00f3prio poder\u201d.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, o trabalhador tornou-se sujeito pol\u00edtico e s\u00edmbolo da moderniza\u00e7\u00e3o nacional. Juscelino Kubitschek (1956-1961) transformou os candangos de Bras\u00edlia em her\u00f3is de uma epopeia desenvolvimentista. Jo\u00e3o Goulart (1961-1964), por sua vez, acrescentou a defesa das reformas de base como obra do povo organizado, indicando que o trabalhador deixaria de ser apenas m\u00e3o de obra para ser reconhecido como construtor do futuro.<\/p>\n<p>Mesmo durante a ditadura dos governos militares (1964-1985), apesar do autoritarismo, a ideia de uma miss\u00e3o nacional foi mantida. Os discursos do \u201cBrasil Grande\u201d e da \u201cpot\u00eancia emergente\u201d refor\u00e7avam a perspectiva de um destino comum, associando a identidade nacional ao desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, por quase seis d\u00e9cadas, o brasileiro foi estimulado a se reconhecer pelo que produzia e pelo papel que exercia na constru\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es nacionais. Havia um destino coletivo. Havia um projeto de pa\u00eds. Havia um \u201cn\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Essa fase hist\u00f3rica, contudo, come\u00e7ou a ruir na d\u00e9cada de 1980, com o ajuste dos Estados Unidos \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal e suas repercuss\u00f5es no Brasil (crise da d\u00edvida externa, infla\u00e7\u00e3o elevada e o impasse pol\u00edtico nacional). Nesse contexto, ganhou for\u00e7a a mobiliza\u00e7\u00e3o pela redemocratiza\u00e7\u00e3o e emergiu o ciclo pol\u00edtico da Nova Rep\u00fablica, originalmente assentado na esperan\u00e7a de mudan\u00e7a e na retomada das reformas interrompidas em 1964.<\/p>\n<h2><strong>A ruptura neoliberal e o retorno \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1rio-exportadora<\/strong><\/h2>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o conduzida pelo alto ap\u00f3s 1985 acabou impossibilitando o reformismo nacional-desenvolvimentista. Com a vit\u00f3ria eleitoral de Fernando Collor de Mello (1990-1992) houve a consagra\u00e7\u00e3o de uma nova maioria pol\u00edtica nacional orientada pelo receitu\u00e1rio neoliberal.<\/p>\n<p>A partir de 1990, a abertura comercial e financeira, as privatiza\u00e7\u00f5es e a desregulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica alteraram profundamente a estrutura do capitalismo brasileiro. A desindustrializa\u00e7\u00e3o precoce enfraqueceu o sistema produtivo constru\u00eddo ao longo do s\u00e9culo XX. O Brasil voltou a refor\u00e7ar uma especializa\u00e7\u00e3o baseada na exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios e recursos naturais, agora em um contexto geopol\u00edtico inteiramente distinto.<\/p>\n<p>Se a Inglaterra havia sido a pot\u00eancia hegem\u00f4nica da Rep\u00fablica Velha e os Estados Unidos o principal parceiro do ciclo nacional-desenvolvimentista, a ascens\u00e3o da China deslocou o eixo din\u00e2mico da economia mundial. Ao mesmo tempo, a China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil.<\/p>\n<p>Essa nova rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica apresenta semelhan\u00e7as com o passado, mas tamb\u00e9m diferen\u00e7as profundas. De um lado, o Brasil volta a assumir a posi\u00e7\u00e3o de grande exportador de commodities agr\u00edcolas e minerais. De outro, a China n\u00e3o exporta apenas bens manufaturados. Exporta tamb\u00e9m tecnologia, plataformas digitais, equipamentos de alta complexidade e servi\u00e7os associados \u00e0 economia digital, refor\u00e7ando uma divis\u00e3o internacional do trabalho cada vez mais assim\u00e9trica.<\/p>\n<p>A reprimariza\u00e7\u00e3o da pauta exportadora brasileira coincidiu com o ingresso na era da intelig\u00eancia artificial, digitaliza\u00e7\u00e3o e economia do conhecimento pelo centro din\u00e2mico do capitalismo mundial. Essas transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas produziram tamb\u00e9m uma profunda muta\u00e7\u00e3o social, uma vez que a sociedade urbana e industrial cedeu lugar a nova de servi\u00e7os hiperconectada.<\/p>\n<p>As antigas identidades coletivas do mundo do trabalho enfraqueceram, com o oper\u00e1rio industrial, o sindicalismo de massa e as grandes organiza\u00e7\u00f5es coletivas perdendo centralidade. Em seu lugar, surgem trabalhadores fragmentados, empreendedores de sobreviv\u00eancia, prestadores de servi\u00e7o, trabalhadores de plataformas e indiv\u00edduos permanentemente conectados.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica tentou responder a essa transforma\u00e7\u00e3o, em primeiro lugar, pela figura do consumidor. Cada governo democr\u00e1tico apostou, \u00e0 sua maneira, apontou para a integra\u00e7\u00e3o social pelo mercado. O acesso ao cr\u00e9dito e ao consumo tornou-se instrumento importante de inclus\u00e3o. Mas consumir n\u00e3o \u00e9 pertencer. O consumo pode melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, mas n\u00e3o oferece, por si s\u00f3, uma narrativa de reconhecimento coletivo. Quando a crise econ\u00f4mica avan\u00e7a, a identidade do consumidor revela sua fragilidade.<\/p>\n<p>E foi nesse vazio que a extrema direita cresceu. Ela compreendeu que as pessoas desejam algo mais profundo como o pertencimento, reconhecimento e sentido de comunidade. Por isso, passou a oferecer uma nova identidade baseada no patriotismo, religi\u00e3o e oposi\u00e7\u00e3o a inimigos internos pelo ressentimento e \u00f3dio, transformando a na\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, em campo permanente de guerra cultural.<\/p>\n<p>Por isso, o desafio hist\u00f3rico do s\u00e9culo XXI n\u00e3o seria apenas econ\u00f4mico, tamb\u00e9m civilizat\u00f3rio. Como se viu, em cada fase do capitalismo, o pa\u00eds produziu uma identidade coletiva. Na sociedade agr\u00e1ria, prevaleceu a na\u00e7\u00e3o inacabada, enquanto na urbano-industrial, afirmou-se a identidade do trabalhador e do desenvolvimentismo e na atualidade da sociedade de servi\u00e7os hiperconectada, o consumidor passou a disputar espa\u00e7o com o patriota digital.<\/p>\n<p>Nenhuma dessas identidades hoje vigentes parecem capazes de responder sozinha aos desafios do primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XXI. O Brasil necessita de uma outra narrativa nacional, adequada \u00e0 era digital, \u00e0 transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e \u00e0 economia do conhecimento e que seja capaz de reconhecer o brasileiro para al\u00e9m do que consome ou da comunidade virtual \u00e0 qual pertence. Uma narrativa que o reconhe\u00e7a pelo que produz, cria, pesquisa, cuida, inova e constr\u00f3i coletivamente.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a reconstru\u00e7\u00e3o de um projeto nacional de desenvolvimento depende, antes de tudo, da reconstru\u00e7\u00e3o de um novo \u201cn\u00f3s\u201d brasileiro. Sem isso, o pa\u00eds poder\u00e1 permanecer preso a uma condi\u00e7\u00e3o paradoxal por ser uma das maiores economias do mundo e incapaz de produzir um sentimento comum para o destino nacional numa \u00e9poca de profundas transforma\u00e7\u00f5es geoecon\u00f4micas e tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p><em>*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, \u00e9 o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica).<\/em><\/p>\n<p>Fonte: A Terra \u00e9 Redonda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcio Pochmann* A reinven\u00e7\u00e3o do Brasil no s\u00e9culo XXI demanda uma nova narrativa identit\u00e1ria que supere o consumo e a fragmenta\u00e7\u00e3o digital em prol de um projeto coletivo de na\u00e7\u00e3o Toda grande transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica altera tamb\u00e9m a forma como&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":48311,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[325,17,5,87,211,10],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.3 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A reinven\u00e7\u00e3o da identidade nacional<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Em um artigo instigante, Marcio Pochmann reflete sobre o desafio de reinventar a identidade nacional brasileira no s\u00e9culo XXI. 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