{"id":48420,"date":"2026-08-04T11:54:19","date_gmt":"2026-08-04T14:54:19","guid":{"rendered":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/?p=48420"},"modified":"2026-08-04T12:14:33","modified_gmt":"2026-08-04T15:14:33","slug":"racismo-cresce-13-no-brasil-a-luta-ancestral-das-mulheres-negras-contra-a-discriminacao-estrutural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/racismo-cresce-13-no-brasil-a-luta-ancestral-das-mulheres-negras-contra-a-discriminacao-estrutural\/","title":{"rendered":"Racismo cresce 13% no Brasil: a luta ancestral das mulheres negras contra a discrimina\u00e7\u00e3o estrutural"},"content":{"rendered":"<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-48420-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Racismo-cresce-13-no-Brasil-a-luta-ancestral-das-mulheres-negras-contra-a-discriminacao-estrutural.mp3?_=1\" \/><source type=\"audio\/ogg\" src=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Racismo-cresce-13-no-Brasil-a-luta-ancestral-das-mulheres-negras-contra-a-discriminacao-estrutural.ogg?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Racismo-cresce-13-no-Brasil-a-luta-ancestral-das-mulheres-negras-contra-a-discriminacao-estrutural.mp3\">https:\/\/aepetba.org.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Racismo-cresce-13-no-Brasil-a-luta-ancestral-das-mulheres-negras-contra-a-discriminacao-estrutural.mp3<\/a><\/audio>\n<p>A mulher negra segue sendo alvo priorit\u00e1rio da viol\u00eancia racial no Brasil. Enquanto o pa\u00eds registra aumento de 13% nos crimes de racismo, as estat\u00edsticas ocultam uma realidade ainda mais brutal: a intersec\u00e7\u00e3o entre racismo e sexismo que marca a vida de milh\u00f5es de brasileiras. Compreender esse cen\u00e1rio exige olhar para al\u00e9m dos n\u00fameros e reconhecer julho como m\u00eas de resist\u00eancia \u2014 uma luta que n\u00e3o come\u00e7ou agora, mas que atravessa s\u00e9culos de resist\u00eancia feminina negra.<\/p>\n<p>O 25 de julho marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data que homenageia Tereza de Benguela, s\u00edmbolo m\u00e1ximo da lideran\u00e7a feminina negra na hist\u00f3ria brasileira. Tereza n\u00e3o foi apenas uma mulher que resistiu \u00e0 escravid\u00e3o \u2014 foi uma estrategista pol\u00edtica, administrativa e militar que liderou o Quilombo de Quariter\u00ea durante vinte anos, no s\u00e9culo XVIII, em regi\u00e3o que hoje pertence ao Mato Grosso. Sua hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 passado distante. \u00c9 espelho de uma luta que continua presente, que continua exigindo que mulheres negras resistam, liderem e paguem o pre\u00e7o mais alto por sua ousadia.<\/p>\n<p>A origem da comemora\u00e7\u00e3o do dia da mulher negra est\u00e1 ligada ao I Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, Rep\u00fablica Dominicana, em 1992. O encontro reuniu mulheres que vivenciavam opress\u00f5es m\u00faltiplas e interseccionadas, reconhecendo que a luta antirracista n\u00e3o poderia estar separada da luta feminista. A escolha do 25 de julho n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Em 2014, o Brasil instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, consolidando essa data como momento de reflex\u00e3o sobre o papel das mulheres negras na hist\u00f3ria brasileira e na preserva\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es culturais afro-brasileiras.<\/p>\n<p>Tereza de Benguela nasceu no s\u00e9culo XVIII, embora historiadores ainda debatam se seu nascimento ocorreu em algum pa\u00eds da \u00c1frica ou no Brasil. O que se conhece com certeza \u00e9 que viveu em condi\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o e chegou \u00e0 regi\u00e3o do Pantanal, onde se tornou esposa de Jos\u00e9 Piolho, homem tamb\u00e9m escravizado que liderava o Quilombo de Quariter\u00ea. Quando Jos\u00e9 Piolho foi assassinado por soldados do Estado brasileiro, Tereza assumiu a lideran\u00e7a de uma comunidade de aproximadamente 100 pessoas de origem negra e ind\u00edgena. Durante vinte anos, entre 1750 e 1770, ela n\u00e3o apenas resistiu \u00e0 invas\u00e3o e \u00e0 escravid\u00e3o \u2014 ela construiu uma estrutura administrativa, pol\u00edtica e econ\u00f4mica que permitia a seus habitantes viverem com dignidade.<\/p>\n<p>Sob a lideran\u00e7a de Tereza, o Quilombo de Quariter\u00ea desenvolveu um sistema de produ\u00e7\u00e3o baseado no cultivo de algod\u00e3o, milho, feij\u00e3o, mandioca e banana. Os excedentes eram vendidos, assim como tecidos feitos com o algod\u00e3o colhido. Mas o que distinguiu Tereza como l\u00edder foi sua capacidade de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ela estabeleceu um conselho que funcionava como um parlamento, onde decis\u00f5es sobre a comunidade eram tomadas coletivamente. Comandava a estrutura administrativa, econ\u00f4mica e pol\u00edtica do quilombo, mantendo um sistema de defesa com armas trocadas com os brancos ou roubadas das vilas pr\u00f3ximas. Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade negra eram transformados em instrumentos de trabalho \u2014 Tereza e seu povo dominavam o uso da forja.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o era uma mulher que apenas sobrevivia. Era uma mulher que administrava, que pensava estrategicamente, que constru\u00eda futuro. Era uma mulher que desafiava o Estado colonial brasileiro em sua pr\u00f3pria l\u00f3gica: a da organiza\u00e7\u00e3o, da produ\u00e7\u00e3o, da defesa. Por isso, Tereza de Benguela representa muito mais que um nome na hist\u00f3ria. Ela representa a capacidade de lideran\u00e7a feminina negra, a intelig\u00eancia pol\u00edtica das mulheres negras, a recusa em aceitar a escravid\u00e3o como destino.<\/p>\n<p>Em 1770, o quilombo foi invadido e destru\u00eddo pelas for\u00e7as de bandeirantes contratadas por Luiz Pinto de Souza Coutinho, governador da capitania do Mato Grosso. Parte da popula\u00e7\u00e3o \u2014 79 negros e 30 ind\u00edgenas \u2014 foi assassinada. Outra parte foi aprisionada. Quanto a Tereza, n\u00e3o existe registro oficial de como morreu. Historiadores suspeitam que ela tenha se suicidado ap\u00f3s ser capturada, ou que tenha sido assassinada ainda no quilombo. Uma terceira vers\u00e3o defende que foi presa na cadeia de Vila Bela, onde definhava tomada pela melancolia profunda, recusando-se a alimentar-se, negando-se a retornar \u00e0 escravid\u00e3o. Depois de morta, sua cabe\u00e7a teria sido cortada e colocada em pra\u00e7a p\u00fablica para servir de exemplo. De todas as formas, \u00e9 praticamente certo que enfrentou a viol\u00eancia at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Julho das pretas \u00e9 mais que um m\u00eas de celebra\u00e7\u00e3o. \u00c9 um per\u00edodo de reflex\u00e3o sobre como o racismo estrutural brasileiro se manifesta de forma particularmente violenta nas vidas das mulheres negras. Enquanto homens negros enfrentam a viol\u00eancia policial e o encarceramento em massa, mulheres negras vivem a sobreposi\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas discrimina\u00e7\u00f5es: s\u00e3o mais pobres, ganham menos, t\u00eam menos acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, sofrem mais viol\u00eancia dom\u00e9stica e sexual, e quando denunciam, enfrentam um sistema de justi\u00e7a que historicamente as desacredita.<\/p>\n<p>Os dados do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2025 revelam que os registros de racismo aumentaram 13% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, passando de 27.082 para 30.743 casos. Simultaneamente, os registros de inj\u00faria racial cresceram 9,2%, de 19.200 para 21.443 ocorr\u00eancias. Esses n\u00fameros, embora alarmantes, representam apenas a ponta do iceberg. Segundo pesquisadores do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, o aumento tamb\u00e9m reflete maior conscientiza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas e fortalecimento das den\u00fancias, especialmente ap\u00f3s a equipara\u00e7\u00e3o da inj\u00faria racial ao crime de racismo, que passou a prever penas de dois a cinco anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas quem est\u00e1 por tr\u00e1s desses registros? As mulheres negras. Estudos apontam que elas s\u00e3o desproporcionalmente afetadas por crimes de racismo e inj\u00faria racial em espa\u00e7os p\u00fablicos, no trabalho e nas redes sociais. A viol\u00eancia racial contra mulheres negras frequentemente carrega uma dimens\u00e3o sexual e de g\u00eanero que n\u00e3o aparece isolada nas estat\u00edsticas criminais. Quando uma mulher negra \u00e9 chamada de &#8220;macaca&#8221; ou &#8220;preta suja&#8221;, a agress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas racial \u2014 \u00e9 uma tentativa de desumaniz\u00e1-la, de negar sua dignidade como mulher. \u00c9 uma continua\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica que levou Tereza de Benguela \u00e0 morte: a recusa em reconhecer a humanidade, a intelig\u00eancia, a capacidade de lideran\u00e7a das mulheres negras.<\/p>\n<p>Na Bahia, os registros de discrimina\u00e7\u00e3o racial tamb\u00e9m cresceram entre 2024 e 2025. Os casos de inj\u00faria racial passaram de 778 para 850, um aumento de 9,1%, enquanto os registros de racismo cresceram de 1.651 para 1.830 ocorr\u00eancias, representando alta de 10,8%. A taxa de racismo subiu de 11,1 para 12,3 casos por 100 mil habitantes. Esses n\u00fameros ganham significado especial na Bahia, estado com maior popula\u00e7\u00e3o negra do pa\u00eds e ber\u00e7o de resist\u00eancias ancestrais que remontam a Tereza de Benguela e continuam vivas em organiza\u00e7\u00f5es como a Irmandade da Boa Morte.<\/p>\n<p>A Irmandade da Boa Morte, fundada no s\u00e9culo XVIII em Cachoeira, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o exclusivamente feminina de mulheres negras que combina devo\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica com pr\u00e1ticas de matriz africana. Por s\u00e9culos, essas mulheres mantiveram viva a mem\u00f3ria da resist\u00eancia contra a escravid\u00e3o e continuam lutando contra o racismo e a intoler\u00e2ncia religiosa. Recentemente, a Irmandade enfrentou amea\u00e7as de despejo, revelando como mulheres negras que preservam a mem\u00f3ria coletiva s\u00e3o constantemente marginalizadas e criminalizadas. A luta da Irmandade \u00e9 a luta de todas as mulheres negras: pela perman\u00eancia, pela dignidade, pelo direito de existir plenamente. \u00c9 a continua\u00e7\u00e3o da luta que Tereza de Benguela iniciou h\u00e1 mais de 250 anos.<\/p>\n<p>Nacionalmente, as diferen\u00e7as entre estados revelam padr\u00f5es preocupantes. Santa Catarina registrou a maior taxa de racismo por 100 mil habitantes, com 32,8%, seguida pelo Rio Grande do Sul com 26,1% e Distrito Federal com 25,5%. Nas taxas de inj\u00faria racial, o Distrito Federal lidera com 28,9%, seguido por Santa Catarina com 27,1% e Mato Grosso com 20,6%. S\u00e3o Paulo, por seu tamanho populacional, concentrou o maior n\u00famero absoluto de registros: 9.925 casos de racismo e 7.868 de inj\u00faria racial. O estado tamb\u00e9m registrou crescimento expressivo de 22,6% nas notifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esses dados refletem n\u00e3o apenas a incid\u00eancia do racismo, mas tamb\u00e9m diferen\u00e7as na forma como os estados registram e classificam os crimes. A aus\u00eancia de padroniza\u00e7\u00e3o nacional dificulta compara\u00e7\u00f5es diretas e mascara a realidade vivida por mulheres negras em cada regi\u00e3o. O que fica claro \u00e9 que o racismo \u00e9 um problema nacional, estrutural, que permeia todas as regi\u00f5es do Brasil.<\/p>\n<p>O crescimento das den\u00fancias, embora preocupante, representa um avan\u00e7o importante. Em 2018, apenas 18 estados informavam estat\u00edsticas sobre crimes de racismo. Em 2025, esse n\u00famero chegou a 26 unidades da Federa\u00e7\u00e3o. Para especialistas, esse crescimento nas den\u00fancias indica maior confian\u00e7a das v\u00edtimas no sistema de justi\u00e7a, ainda que limitada. Mulheres negras est\u00e3o denunciando mais porque precisam \u2014 porque a viol\u00eancia racial \u00e9 cotidiana e insuport\u00e1vel. Mas denunciar n\u00e3o \u00e9 suficiente quando o sistema que recebe as den\u00fancias foi constru\u00eddo para proteger os mesmos que oprimem.<\/p>\n<p>O combate ao racismo estrutural exige transforma\u00e7\u00f5es profundas. Exige pol\u00edticas p\u00fablicas permanentes de educa\u00e7\u00e3o que ensinem a hist\u00f3ria real das mulheres negras, que coloquem Tereza de Benguela nos curr\u00edculos escolares n\u00e3o como nota de rodap\u00e9, mas como protagonista. Exige inclus\u00e3o social que garanta acesso de mulheres negras ao ensino superior, ao mercado de trabalho, \u00e0 propriedade. Exige promo\u00e7\u00e3o ativa da igualdade racial em todas as institui\u00e7\u00f5es. Exige, acima de tudo, que se ou\u00e7a as vozes das mulheres negras sobre suas pr\u00f3prias experi\u00eancias e necessidades.<\/p>\n<p>Julho das pretas \u00e9 um chamado que ecoa desde o s\u00e9culo XVIII. \u00c9 o m\u00eas em que se homenageia Tereza de Benguela, a mulher que liderou com intelig\u00eancia pol\u00edtica e coragem. \u00c9 o m\u00eas em que a Irmandade da Boa Morte celebra suas tradi\u00e7\u00f5es e reafirma sua luta. \u00c9 o m\u00eas em que os n\u00fameros \u2014 13% de aumento, 30.743 registros, 1.830 casos na Bahia \u2014 ganham rostos, hist\u00f3rias, nomes de mulheres que continuam resistindo.<\/p>\n<p>Enfrentar o racismo estrutural n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica ou justi\u00e7a criminal. \u00c9 uma quest\u00e3o de humanidade. \u00c9 reconhecer que mulheres negras s\u00e3o sujeitos de direito, que sua vida importa, que sua resist\u00eancia \u00e9 sagrada. Enquanto o Brasil n\u00e3o colocar a mulher negra no centro de suas pol\u00edticas de igualdade racial \u2014 reconhecendo sua hist\u00f3ria, sua lideran\u00e7a, sua capacidade de transforma\u00e7\u00e3o \u2014 continuar\u00e1 sendo um pa\u00eds que nega a democracia a milh\u00f5es de pessoas. A luta que Tereza de Benguela iniciou h\u00e1 mais de 250 anos continua. E ela n\u00e3o pode ser silenciada por estat\u00edsticas que a reduzem a n\u00fameros. Ela \u00e9 viva, \u00e9 presente, \u00e9 futura.<\/p>\n<p><em><strong>Fontes:<\/strong> F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica \u2013 Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2025; Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia; Superintend\u00eancia de Inclus\u00e3o, Pol\u00edticas Afirmativas e Diversidade do Governo Federal; Funda\u00e7\u00e3o Palmares; Impress\u00f5es Rebeldes \u2013 Universidade Federal Fluminense; Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA); Estudos sobre a Irmandade da Boa Morte.<\/em><\/p>\n<p><strong>Instituto Afroam\u00e9rica Bahia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mulher negra segue sendo alvo priorit\u00e1rio da viol\u00eancia racial no Brasil. 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