Por Marcos André*
A redução da jornada de trabalho está no centro do debate nacional, diante da possibilidade de votação no Congresso Nacional em maio de 2026, momento em que se torna impossível ignorar a maior contradição do mundo do trabalho: produzimos mais riqueza com muito menos trabalhadores — isso graças às inovações tecnológicas — e, ainda assim, a imensa maioria dos trabalhadores e trabalhadoras segue na informalidade, na exaustão, mal remunerada e pressionada por metas e ritmos desumanos.
Um paradoxo inescapável: nunca se produziu tanta riqueza em tão pouco tempo, com tão poucos operários, mas quem paga essa conta é a classe trabalhadora, que nunca esteve tão exausta, adoecida e pressionada por metas desumanas. O resultado desse descompasso aparece nos números oficiais: em 2023, o INSS registrou mais de 288 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho, dos quais a síndrome de burnout respondeu por cerca de 40% dos casos — um aumento de quase 100% em relação a 2019. No total, os afastamentos por motivos de saúde mental e esgotamento já representam mais de 10% de todos os benefícios concedidos por incapacidade laboral no país, um custo social e humano alto demais para ser ignorado.
Por isso, a redução da jornada não pode ser tratada como favor de governos ou empresas, mas como retribuição concreta ao aumento da produtividade, fruto do trabalho coletivo e da incorporação de tecnologia em todos os setores. Em vez de concentrar os ganhos apenas no lucro dos acionistas e na especulação financeira, parte desse salto produtivo precisa retornar na forma de mais tempo livre, melhor qualidade de vida, mais empregos e oportunidades reais de formação continuada.
Nesse cenário, centrais sindicais e sindicatos deveriam ser a ponta de lança dessa agenda, recolocando a redução da jornada como reivindicação estratégica. Não se trata apenas de discutir reajustes anuais, mas de disputar o próprio modelo de sociedade: queremos ou não que a tecnologia libere as pessoas do excesso de trabalho, e não aprofunde o desemprego, a precarização e o adoecimento mental? A resposta não virá de gabinetes, e sim da capacidade de mobilização e pressão organizada da classe trabalhadora em seus locais de trabalho, categorias e territórios.
Ao mesmo tempo, escancara-se o papel da direita, ainda saudosa do escravismo, empenhada em esvaziar qualquer proposta de redução da jornada, seja por manobras regimentais, seja enterrando projetos em comissões, seja com o velho discurso do medo de que “vai quebrar as empresas” ou “aumentar o custo Brasil”. É a mesma retórica usada, no passado, contra a Lei Áurea, o 13º salário, as férias e a própria CLT, agora atualizada para o século XXI. Sem pressão das ruas, assembleias e participação ativa da base, qualquer governo que busque avançar na agenda da classe trabalhadora fica isolado e vulnerável ao bombardeio do grande capital e da elite da mediocridade.
É nesse contexto que a proposta de jornada de 36 horas semanais, em regime de quatro dias de trabalho por três de descanso (4×3), se apresenta como imperativa, enquanto diretriz concreta para uma nova organização do tempo de trabalho no Brasil. Longe de ser luxo ou utopia, essa mudança pode trazer um triplo benefício: melhorar diretamente a vida de trabalhadores e trabalhadoras — com menos desgaste físico e mental, mais convivência familiar, estudo e qualificação —; ampliar a oferta de empregos, ao redistribuir as horas trabalhadas; e atuar como política de saúde pública, enfrentando o avanço das síndromes de esgotamento, ansiedade, depressão e burnout, que atingem cada vez mais empregados em todos os setores. A jornada de 36 horas em esquema 4×3 recoloca a economia brasileira na rota de um desenvolvimento com justiça social — desde que seja assumida como bandeira de luta coletiva, com visibilidade pública e protagonismo da própria classe trabalhadora.
* Marcos André é presidente da AEPET-BA, além de contador e advogado
