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O Brasil enfrenta uma grave crise de saúde mental, refletida no recorde histórico de afastamentos do trabalho por transtornos como ansiedade e depressão. Em 2024, foram concedidas 472.328 licenças médicas por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação ao ano anterior.

Entre os trabalhadores mais afetados estão as mulheres, que representam 64% dos afastamentos, com uma média de três meses longe de suas atividades profissionais. É o que mostra um levantamento exclusivo do g1, baseado em dados do Ministério da Previdência.

A situação tem se agravado não apenas pelo impacto da pandemia, mas também por fatores estruturais do mercado de trabalho, como a sobrecarga, a desigualdade salarial e a instabilidade profissional.

Essas condições são ainda mais severas na categoria petroleira, especialmente entre as mulheres petroleiras, que lidam com pressões adicionais em um ambiente historicamente masculinizado e de alta exigência.

Quadro alarmante na Bahia

Na Bahia, a crise de saúde mental foi intensificada pelo programa de desinvestimentos da Petrobrás e a venda de ativos, no governo de Jair Bolsonaro. Muitos petroleiros e petroleiras foram transferidos (as) compulsoriamente para outros estados, muitas vezes sem considerar os impactos emocionais e familiares dessa mudança.

Para as mulheres, a situação é ainda mais crítica, devido à ruptura de suas redes de apoio, ao acúmulo de responsabilidades domésticas e à insegurança em relação ao futuro profissional.

Uma pesquisa realizada pela AEPET-BA, entre os dias 29 de março e 11 de abril de 2023 reforça essa realidade, apontando um aumento expressivo dos casos de ansiedade, estresse e depressão entre petroleiras.

Saiba mais Quase 80% dos petroleiros transferidos estão com a saúde mental impactada, mostra pesquisa da AEPET-BA

Recentemente, a amaça de imposição de novas regras de teletrabalho, sem consulta às trabalhadoras, também tem sido um fator preocupante. Muitas mulheres, especialmente mães de crianças pequenas, enfrentam dificuldades para equilibrar as demandas profissionais e familiares.

Relatos indicam que algumas, mesmo estando aptas a exercer suas funções remotamente, são forçadas a retornar ao presencial, desconsiderando suas necessidades e bem-estar.

O depoimento da petroleira Andressa Regina de Quadros ilustra o impacto dessas mudanças:
“Minha mãe faleceu ano passado, após alguns poucos dias de internação. Morava em outro estado, e foi graças ao teletrabalho que pude acompanhá-la na UTI, ouvir dela um último ‘eu te amo’, antes de que entrasse em coma e não voltasse mais. Por pouco não teria conseguido me despedir dela. ‘Deu tempo, pelo menos’, é o que me conforta do vazio que ela deixou.”

Andressa, que trabalha no Edifício Senado, sede da Petrobrás no Rio de Janeiro, resume o sentimento de muitas petroleiras:
“Somos a tal ‘geração sanduíche’, que cuida tanto dos filhos quanto dos pais, mas não é cuidada por ninguém. É a geração dos sobrecarregados, dos ansiosos, dos deprimidos, dos exaustos.”

A atual política da Petrobrás não apenas desconsidera essas dificuldades, mas também impõe condições de trabalho que agravam ainda mais os problemas de saúde mental. O teletrabalho, que demonstrou ser eficiente e benéfico para o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, deve ser tratado como um direito, e não como um privilégio arbitrário.

Diante desse cenário alarmante, a AEPET-BA reforça a urgência de medidas concretas para garantir condições de trabalho dignas e saudáveis para as petroleiras. É fundamental que a Petrobrás adote políticas mais inclusivas, ofereça suporte psicossocial adequado e promova um ambiente que valorize a saúde mental de suas trabalhadoras. A luta pela equidade e pelo bem-estar de toda a sua força de trabalho, especialmente das mulheres, é também a luta por uma Petrobrás estratégica para o Brasil, socialmente justa para os brasileiros e brasileiras, ambientalmente sustentável para o mundo e humanizada em suas relações laborais.


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