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Há 191 anos, na noite de 24 de janeiro de 1835, Salvador foi palco da maior rebelião urbana de pessoas escravizadas da história do Brasil e das Américas. A Revolta dos Malês, protagonizada majoritariamente por africanos muçulmanos escravizados e libertos, expôs as contradições do sistema escravocrata, abalou o poder colonial e deixou um legado de resistência que ecoa até os dias atuais.

Estima-se que cerca de 600 africanos tenham participado do levante, número que, proporcionalmente à população atual de Salvador, equivaleria a mais de 12 mil pessoas. Embora a insurreição tenha sido duramente reprimida em poucas horas, com mais de 70 mortos e cerca de 500 punições entre prisões, açoites, deportações e penas de morte, historiadores a reconhecem como o mais sério levante de escravizados urbanos ocorrido nas Américas. Salvador, à época, tinha quase 42% de sua população formada por pessoas escravizadas, cenário que favoreceu a organização e a dimensão da revolta.

Conhecidos como malês — termo de origem iorubá que designa muçulmanos —, os participantes da revolta se destacavam por sua capacidade de organização, letramento e articulação política. Diferente da narrativa que tenta reduzir o episódio a uma explosão de violência desordenada, pesquisas apontam que o levante foi cuidadosamente planejado, com reuniões secretas, arrecadação de recursos e estratégias bem definidas.

O objetivo inicial incluía libertar o líder religioso Pacífico Licutã (Bilal) e expandir a rebelião para os engenhos do Recôncavo Baiano, centro da escravidão no estado.

A trama começou a dar errado porque a prefeitura da cidade recebeu, na véspera, uma denúncia anônima sobre o plano. O chefe de polícia foi acionado e determinou que patrulhas fossem realizadas em todos os bairros de Salvador, com a detenção de qualquer suspeito. Hoje se sabe que a denunciante foi uma africana liberta nagô chamada Sabina da Cruz (?-1875). A maior estudiosa da personagem é a historiadora Luciana Brito. “Seu intento inicial era impedir que o marido participasse do levante. Ela denunciou porque queria evitar de toda maneira que ele participasse. Sabia que seriam grandes as chances deles serem descobertos, já que não havia nenhuma referência de levante [perpetrado por escravizados] com sucesso”, afirma ela.

Entretanto, é bom lembrar que as armas dos participantes da revolta eram mais rudimentares. Do ponto de vista bélico, eles estavam em desvantagem. Acuado pelas autoridades, um grupo de cerca de 60 homens precipitou então uma tentativa de levante. Eles chegaram a atacar policiais e rumaram juntos ao prédio da Câmara. Não deu certo e os policiais conseguiram deter o grupo, controlando a situação. Batalhas pipocaram em diversos pontos de Salvador. Com uma intensa repressão, em cerca de 24 horas todos os focos foram dispersos e os rebelados, mortos ou detidos. Segundo os historiadores, 16 envolvidos ainda foram condenados à morte. Destes, apenas quatro foram de fato executados — no Campo da Pólvora, por um pelotão de fuzilamento, em 14 de maio daquele ano.

A grande maioria dos que foram detidos acabaram condenados a açoitamento — de 300 a 1,2 mil chibatadas (aplicadas gradualmente ao longo de vários dias), conforme o caso.

Apesar de militarmente derrotada, a Revolta dos Malês teve profundo impacto político e social. Ela desafiou a ideia de passividade dos escravizados e revelou homens e mulheres negros como sujeitos políticos, portadores de projetos de liberdade, organização comunitária e identidade própria. Também evidenciou o papel da religião islâmica como elemento de coesão social e resistência cultural frente à imposição do cristianismo e à repressão colonial.

O legado da revolta permanece vivo na memória e na cultura brasileira. Está presente em estudos acadêmicos, na literatura — como no romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves —, no cinema, nas artes visuais e em manifestações culturais como o bloco afro Malê Debalê, fundado em Salvador em 1979. Mais recentemente, a história ganhou novas leituras com o lançamento do filme Malês, dirigido e estrelado por Antônio Pitanga.

Resgatar a Revolta dos Malês é também reafirmar que a abolição da escravidão não foi um gesto concedido, mas o resultado de séculos de luta, rebeliões e resistência negra. Em um país ainda marcado pelo racismo estrutural e pela intolerância religiosa, lembrar esse episódio é fortalecer a luta por justiça histórica, igualdade de direitos e reconhecimento da contribuição dos povos africanos e afro-brasileiros na construção do Brasil.

A AEPET-BA reafirma a importância da memória histórica como instrumento de consciência crítica e transformação social, reconhecendo na Revolta dos Malês um símbolo de coragem, organização coletiva e defesa da liberdade.

Fontes:
BBC News Brasil
Agência Brasil


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