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A mulher negra segue sendo alvo prioritário da violência racial no Brasil. Enquanto o país registra aumento de 13% nos crimes de racismo, as estatísticas ocultam uma realidade ainda mais brutal: a intersecção entre racismo e sexismo que marca a vida de milhões de brasileiras. Compreender esse cenário exige olhar para além dos números e reconhecer julho como mês de resistência — uma luta que não começou agora, mas que atravessa séculos de resistência feminina negra.

O 25 de julho marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data que homenageia Tereza de Benguela, símbolo máximo da liderança feminina negra na história brasileira. Tereza não foi apenas uma mulher que resistiu à escravidão — foi uma estrategista política, administrativa e militar que liderou o Quilombo de Quariterê durante vinte anos, no século XVIII, em região que hoje pertence ao Mato Grosso. Sua história não é passado distante. É espelho de uma luta que continua presente, que continua exigindo que mulheres negras resistam, liderem e paguem o preço mais alto por sua ousadia.

A origem da comemoração do dia da mulher negra está ligada ao I Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, República Dominicana, em 1992. O encontro reuniu mulheres que vivenciavam opressões múltiplas e interseccionadas, reconhecendo que a luta antirracista não poderia estar separada da luta feminista. A escolha do 25 de julho não foi aleatória. Em 2014, o Brasil instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, consolidando essa data como momento de reflexão sobre o papel das mulheres negras na história brasileira e na preservação das tradições culturais afro-brasileiras.

Tereza de Benguela nasceu no século XVIII, embora historiadores ainda debatam se seu nascimento ocorreu em algum país da África ou no Brasil. O que se conhece com certeza é que viveu em condição de escravidão e chegou à região do Pantanal, onde se tornou esposa de José Piolho, homem também escravizado que liderava o Quilombo de Quariterê. Quando José Piolho foi assassinado por soldados do Estado brasileiro, Tereza assumiu a liderança de uma comunidade de aproximadamente 100 pessoas de origem negra e indígena. Durante vinte anos, entre 1750 e 1770, ela não apenas resistiu à invasão e à escravidão — ela construiu uma estrutura administrativa, política e econômica que permitia a seus habitantes viverem com dignidade.

Sob a liderança de Tereza, o Quilombo de Quariterê desenvolveu um sistema de produção baseado no cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca e banana. Os excedentes eram vendidos, assim como tecidos feitos com o algodão colhido. Mas o que distinguiu Tereza como líder foi sua capacidade de organização política. Ela estabeleceu um conselho que funcionava como um parlamento, onde decisões sobre a comunidade eram tomadas coletivamente. Comandava a estrutura administrativa, econômica e política do quilombo, mantendo um sistema de defesa com armas trocadas com os brancos ou roubadas das vilas próximas. Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade negra eram transformados em instrumentos de trabalho — Tereza e seu povo dominavam o uso da forja.

Essa não era uma mulher que apenas sobrevivia. Era uma mulher que administrava, que pensava estrategicamente, que construía futuro. Era uma mulher que desafiava o Estado colonial brasileiro em sua própria lógica: a da organização, da produção, da defesa. Por isso, Tereza de Benguela representa muito mais que um nome na história. Ela representa a capacidade de liderança feminina negra, a inteligência política das mulheres negras, a recusa em aceitar a escravidão como destino.

Em 1770, o quilombo foi invadido e destruído pelas forças de bandeirantes contratadas por Luiz Pinto de Souza Coutinho, governador da capitania do Mato Grosso. Parte da população — 79 negros e 30 indígenas — foi assassinada. Outra parte foi aprisionada. Quanto a Tereza, não existe registro oficial de como morreu. Historiadores suspeitam que ela tenha se suicidado após ser capturada, ou que tenha sido assassinada ainda no quilombo. Uma terceira versão defende que foi presa na cadeia de Vila Bela, onde definhava tomada pela melancolia profunda, recusando-se a alimentar-se, negando-se a retornar à escravidão. Depois de morta, sua cabeça teria sido cortada e colocada em praça pública para servir de exemplo. De todas as formas, é praticamente certo que enfrentou a violência até o fim.

Julho das pretas é mais que um mês de celebração. É um período de reflexão sobre como o racismo estrutural brasileiro se manifesta de forma particularmente violenta nas vidas das mulheres negras. Enquanto homens negros enfrentam a violência policial e o encarceramento em massa, mulheres negras vivem a sobreposição de múltiplas discriminações: são mais pobres, ganham menos, têm menos acesso à educação superior, sofrem mais violência doméstica e sexual, e quando denunciam, enfrentam um sistema de justiça que historicamente as desacredita.

Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revelam que os registros de racismo aumentaram 13% em relação ao ano anterior, passando de 27.082 para 30.743 casos. Simultaneamente, os registros de injúria racial cresceram 9,2%, de 19.200 para 21.443 ocorrências. Esses números, embora alarmantes, representam apenas a ponta do iceberg. Segundo pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o aumento também reflete maior conscientização das vítimas e fortalecimento das denúncias, especialmente após a equiparação da injúria racial ao crime de racismo, que passou a prever penas de dois a cinco anos de prisão.

Mas quem está por trás desses registros? As mulheres negras. Estudos apontam que elas são desproporcionalmente afetadas por crimes de racismo e injúria racial em espaços públicos, no trabalho e nas redes sociais. A violência racial contra mulheres negras frequentemente carrega uma dimensão sexual e de gênero que não aparece isolada nas estatísticas criminais. Quando uma mulher negra é chamada de “macaca” ou “preta suja”, a agressão não é apenas racial — é uma tentativa de desumanizá-la, de negar sua dignidade como mulher. É uma continuação da lógica que levou Tereza de Benguela à morte: a recusa em reconhecer a humanidade, a inteligência, a capacidade de liderança das mulheres negras.

Na Bahia, os registros de discriminação racial também cresceram entre 2024 e 2025. Os casos de injúria racial passaram de 778 para 850, um aumento de 9,1%, enquanto os registros de racismo cresceram de 1.651 para 1.830 ocorrências, representando alta de 10,8%. A taxa de racismo subiu de 11,1 para 12,3 casos por 100 mil habitantes. Esses números ganham significado especial na Bahia, estado com maior população negra do país e berço de resistências ancestrais que remontam a Tereza de Benguela e continuam vivas em organizações como a Irmandade da Boa Morte.

A Irmandade da Boa Morte, fundada no século XVIII em Cachoeira, é uma organização exclusivamente feminina de mulheres negras que combina devoção católica com práticas de matriz africana. Por séculos, essas mulheres mantiveram viva a memória da resistência contra a escravidão e continuam lutando contra o racismo e a intolerância religiosa. Recentemente, a Irmandade enfrentou ameaças de despejo, revelando como mulheres negras que preservam a memória coletiva são constantemente marginalizadas e criminalizadas. A luta da Irmandade é a luta de todas as mulheres negras: pela permanência, pela dignidade, pelo direito de existir plenamente. É a continuação da luta que Tereza de Benguela iniciou há mais de 250 anos.

Nacionalmente, as diferenças entre estados revelam padrões preocupantes. Santa Catarina registrou a maior taxa de racismo por 100 mil habitantes, com 32,8%, seguida pelo Rio Grande do Sul com 26,1% e Distrito Federal com 25,5%. Nas taxas de injúria racial, o Distrito Federal lidera com 28,9%, seguido por Santa Catarina com 27,1% e Mato Grosso com 20,6%. São Paulo, por seu tamanho populacional, concentrou o maior número absoluto de registros: 9.925 casos de racismo e 7.868 de injúria racial. O estado também registrou crescimento expressivo de 22,6% nas notificações.

Esses dados refletem não apenas a incidência do racismo, mas também diferenças na forma como os estados registram e classificam os crimes. A ausência de padronização nacional dificulta comparações diretas e mascara a realidade vivida por mulheres negras em cada região. O que fica claro é que o racismo é um problema nacional, estrutural, que permeia todas as regiões do Brasil.

O crescimento das denúncias, embora preocupante, representa um avanço importante. Em 2018, apenas 18 estados informavam estatísticas sobre crimes de racismo. Em 2025, esse número chegou a 26 unidades da Federação. Para especialistas, esse crescimento nas denúncias indica maior confiança das vítimas no sistema de justiça, ainda que limitada. Mulheres negras estão denunciando mais porque precisam — porque a violência racial é cotidiana e insuportável. Mas denunciar não é suficiente quando o sistema que recebe as denúncias foi construído para proteger os mesmos que oprimem.

O combate ao racismo estrutural exige transformações profundas. Exige políticas públicas permanentes de educação que ensinem a história real das mulheres negras, que coloquem Tereza de Benguela nos currículos escolares não como nota de rodapé, mas como protagonista. Exige inclusão social que garanta acesso de mulheres negras ao ensino superior, ao mercado de trabalho, à propriedade. Exige promoção ativa da igualdade racial em todas as instituições. Exige, acima de tudo, que se ouça as vozes das mulheres negras sobre suas próprias experiências e necessidades.

Julho das pretas é um chamado que ecoa desde o século XVIII. É o mês em que se homenageia Tereza de Benguela, a mulher que liderou com inteligência política e coragem. É o mês em que a Irmandade da Boa Morte celebra suas tradições e reafirma sua luta. É o mês em que os números — 13% de aumento, 30.743 registros, 1.830 casos na Bahia — ganham rostos, histórias, nomes de mulheres que continuam resistindo.

Enfrentar o racismo estrutural não é apenas uma questão de segurança pública ou justiça criminal. É uma questão de humanidade. É reconhecer que mulheres negras são sujeitos de direito, que sua vida importa, que sua resistência é sagrada. Enquanto o Brasil não colocar a mulher negra no centro de suas políticas de igualdade racial — reconhecendo sua história, sua liderança, sua capacidade de transformação — continuará sendo um país que nega a democracia a milhões de pessoas. A luta que Tereza de Benguela iniciou há mais de 250 anos continua. E ela não pode ser silenciada por estatísticas que a reduzem a números. Ela é viva, é presente, é futura.

Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025; Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; Superintendência de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade do Governo Federal; Fundação Palmares; Impressões Rebeldes – Universidade Federal Fluminense; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA); Estudos sobre a Irmandade da Boa Morte.

Instituto Afroamérica Bahia


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