Por Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo apresentar os impactos globais e nos Estados Unidos e as prováveis consequências sobre o sistema de comércio internacional resultantes da contrarrevolução comercial desencadeada pelo Presidente Donald Trump dos Estados Unidos. A “Contrarrevolução Comercial” foi desencadeada por Donald Trump para reverter o processo de globalização e livre-comércio predominante desde o fim da Segunda Guerra Mundial que estaria sendo benéfico para a China e prejudicial aos interesses dos Estados Unidos. Em essência, a contrarrevolução comercial de Donald Trump representa um movimento de protecionismo agressivo e nacionalismo econômico, que contrasta diretamente com o sistema multilateral e as cadeias globais de valor estabelecidas nas últimas décadas de globalização produtiva, comercial e financeira.
Neste artigo, são apresentados: 1) O Princípio da Contrarrevolução Comercial de Donald Trump; 2) As Principais Ferramentas e Ações implementadas por Donald Trump; 3) Os Impactos Globais e nos Estados Unidos da Contrarrevolução Comercial de Donald Trump; e, 4) As Prováveis Consequências Globais Resultantes da Contrarrevolução Comercial de Donald Trump.
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O Princípio da Contrarrevolução Comercial de Donald Trump
A política comercial de Trump se baseia na filosofia do “America First” (América Primeiro) e tem como pilares:
| Pilares | Descrição |
| Balanças Comerciais “Justas” | Trump argumenta que os grandes déficits comerciais dos
Estados Unidos (como com a China) representam a “perda” de riqueza e empregos americanos. Seu objetivo é buscar a “reciprocidade”, igualando as tarifas de importação de outros países às dos Estados Unidos (que geralmente são mais baixas). |
| “Desglobalização” | A ideia de que as empresas americanas devem “trazer o produto
de volta para casa” (Bring the supply chain home), incentivando a produção doméstica e reduzindo a dependência de cadeias de suprimentos globais, especialmente na China. |
| Protecionismo Tarifário | Uso do tarifaço (tarifas alfandegárias elevadas) como
ferramenta primária de política externa e econômica, em vez de negociações multilaterais (como as promovidas pela OMC). |
| Enfraquecimento da OMC | Enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio
(OMC), por considerá-la ineficaz ou injusta para os interesses americanos. |
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As Principais Ferramentas e Ações implementadas por Donald Trump
As ações de Trump foram marcadas por rupturas com acordos e imposição unilateral de barreiras:
2.1- A Guerra Comercial Estados Unidos-China
- Tarifaço Massivo:Trump impôs tarifas substanciais (chegando a mais de 100% em alguns casos) sobre bilhões de dólares em produtos chineses, sob a alegação de práticas comerciais desleais, roubo de propriedade intelectual e subsídios estatais.
- Retaliação:A China respondeu com tarifas retaliatórias sobre produtos americanos, especialmente agrícolas (como soja), intensificando a Guerra Comercial e gerando tensões globais.
2.2- Medidas Protecionistas Generalizadas
- Tarifas de Aço e Alumínio:Trump impôs taxas sobre importações de aço (25%) e alumínio (10%) de quase todos os países (incluindo Brasil, Canadá e União Europeia) sob o argumento de segurança nacional.
- Renegociação de Acordos:Trump pressionou pela renegociação de acordos de livre-comércio, como o NAFTA (substituído pelo USMCA, com novas regras para o setor automotivo, por exemplo), e ameaçou impor tarifas sobre veículos importados.
2.3- Ameaça de Tarifa Universal
- Tarifa “Recíproca”:Trump implementou uma tarifa universal (como a de 10% sobre todas as importações) para forçar parceiros comerciais a reduzir suas próprias barreiras ou a negociar novos acordos, criando grande incerteza no comércio internacional.
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Os Impactos globais e nos Estados Unidos da Contrarrevolução Comercial de Donald Trump
Os impactos da “contrarrevolução” comercial de Donald Trump foram sentidos em todo o mundo e nos Estados Unidos:
| Impactos | Descrição |
| Fragmentação das Cadeias Globais | As empresas foram forçadas a repensar suas cadeias de suprimentos
para evitar as tarifas, levando a uma potencial fragmentação do sistema de produção global. |
| Redirecionamento do Comércio | Houve um redirecionamento de fluxos comerciais. Por exemplo,
países do Sudeste Asiático e México se beneficiaram ao capturar parte da produção que saiu da China para os Estados Unidos. |
| Aumento de Preços e Inflação | O aumento das tarifas encarece os produtos importados para o
consumidor americano, contribuindo para a pressão inflacionária nos Estados Unidos. |
| Incerteza e Desaceleração | A imprevisibilidade da política tarifária gerou grande incerteza
para os investidores e impactou negativamente o crescimento do comércio global. |
| Retaliação e Conflito | A imposição de tarifas levou a retaliação por parte dos parceiros
comerciais, resultando em perdas para setores exportadores americanos (como o agronegócio). |
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As Prováveis Consequências Globais Resultantes da Contrarrevolução Comercial de Donald Trump.
Pelo exposto, a “Contrarrevolução Comercial” de Trump é uma tentativa radical de desmontar o consenso pós-Guerra Fria sobre o livre-comércio desencadeado pelo processo de globalização produtiva, comercial e financeira, que prioriza a produção local e o equilíbrio comercial bilateral acima das regras multilaterais e da eficiência das cadeias globais. As prováveis consequências resultantes da contrarrevolução comercial de Trump foram delineadas pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, expostas no artigo “The world is in a new age of variable geometry, says Mark Carney” (O mundo está numa nova era de geometria variável, afirma Mark Carney), publicado pelo The Economist de 12/11/2025
Neste artigo, Mark Carney afirma que o sistema internacional foi rompido. O crescente mercantilismo dos Estados Unidos sob o comando de Donald Trump e a paralisia na Organização Mundial do Comércio (OMC) contribuíram para o colapso da ordem econômica mundial pós-Guerra Fria de instituições multilaterais, regras e convenções. A segurança, a prosperidade e a resiliência que o antigo sistema proporcionava dependiam fortemente do compromisso de seu núcleo principal, os Estados Unidos da América. À medida que essa nação indispensável abandonou seus compromissos com as instituições globais, a fragilidade do sistema pós-Guerra Fria foi revelada.
Para fazer frente a esta nova situação do comércio internacional, Mark Carney afirma no artigo acima citado que uma nova rede de cooperação está começando a surgir caracterizada por coalizões dinâmicas, sobrepostas e pragmáticas, construídas em torno de interesses compartilhados e, ocasionalmente, valores compartilhados, em vez de instituições compartilhadas como anteriormente com a OMC. Mark Carney afirma que tempos difíceis exigem respostas pragmáticas. Países que normalmente não seriam considerados “com interesses semelhantes” cooperarão cada vez mais onde compartilharem objetivos e valores específicos em questões específicas. Segundo Mark Carney, a nova arquitetura climática poderia ser uma amálgama de regras comerciais ancoradas na União Europeia, padrões tecnológicos centrados na China e na Índia e soluções baseadas na natureza com base no Brasil.
Mark Carney afirma que, em vez de um sistema comercial único e reformado, baseado em regras como as da OMC, um mosaico de acordos parciais e arranjos criativos de “acoplamento” entre blocos poderia se desenvolver no futuro. Uma opção seria reunir dois dos maiores blocos comerciais do mundo, a União Europeia na Europa e o CPTPP (Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica), centrado na Ásia. Chegar a um consenso para reformar a OMC pode levar décadas. Reunir grupos de países que compartilham a crença no livre comércio fundamentado em padrões básicos para o trabalho, o meio ambiente e a soberania de dados serão uma maneira mais rápida de progredir.
Mark Carney afirma no artigo acima citado que, embora apresente riscos de fragmentação, duplicação e potenciais desigualdades para aqueles que ficarem de fora desses arranjos criativos de “acoplamento” entre blocos, tais preocupações devem ser superadas pelos benefícios de velocidade, adaptabilidade e impacto. Essas coalizões podem, em última análise, provar-se mais resilientes a choques futuros do que o atual sistema internacional de comércio. Mark Carney conclui que não devemos ansiar por voltar ao que era antes. Devemos nos concentrar em construir algo melhor. O crepúsculo do multilateralismo do passado será seguido pela ascensão do plurilateralismo do futuro quando os Estados nacionais, que tecerão novas redes e construirão alianças pragmáticas, estarão em melhor posição para prosperar nesta nova era.
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* Fernando Alcoforado, 86, é associado emérito da AEPET-BA, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona.
