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Eric Gil Dantas, economista do Ibeps e da AEPET-BA

Marcos André dos Santos, presidente da AEPET-BA

Em 7 de agosto, a Petrobras anunciou a possibilidade de a estatal retornar ao setor de distribuição de gás de cozinha, abandonado desde a privatização da Liquigás em 2020. Segundo Magda Chambriard, presidente da companhia, houve um grande aumento da margem dos distribuidores de GLP nos últimos anos, o que contribuiu para a inflação do preço do botijão no país, o que a retomada da Petrobras na distribuição poderia ajudar a resolver.

Mas na Bahia o problema é pior. Ao contrário do restante do país o consumo deste combustível caiu nos últimos anos devido a três fatores.

Primeiro, o aumento das margens de distribuição. A venda da Liquigás para a Copa Energia foi bastante problemática. A empresa participava de um setor extremamente oligopolizado e quando ocorreu a privatização, apenas cinco empresas dominavam 90% de toda a venda de GLP de 13 kg no Brasil, apenas uma delas estatal. Hoje as cinco maiores empresas detêm 96%, o que permite aumentar suas margens sem risco de concorrência.

Com um mercado oligopolizado e o caos nos preços dos combustíveis desde a pandemia, o setor aproveitou para inflacionar fortemente suas margens. Um estudo da EPE compilou dados financeiros de empresas do setor e verificou que a margem líquida média (lucro) cresceu 188% entre 2020 e 2024.

Segundo, o aumento das margens dos revendedores. A margem de revenda (parcela que fica com empresas que fazem a venda para o consumidor final) na Bahia também explodiu. Em dezembro de 2020, era de R$ 16, em junho deste ano ficou em R$ 34, crescimento de 111% (a inflação do período foi de 33%). Se corrigíssemos apenas pelo IPCA, a margem deveria ser R$ 13 menor.

Terceiro, o aumento dos preços na Refinaria de Mataripe. Privatizada em 2021, a refinaria cobra preços muito superiores aos da Petrobras. O preço médio de Mataripe para 13kg de GLP no 1º semestre foi de R$ 55, enquanto a Petrobras cobrou R$ 35 no mesmo período – uma diferença de 58% ou R$ 20.

Estes três problemas inflacionaram o gás de cozinha no estado, subindo 68% entre dezembro de 2020 e junho de 2025 (no Brasil o aumento foi de 45%) impactando diretamente o consumo. Dados da ANP mostram que o consumo do GLP de 13 kg na Bahia vem apresentando forte queda. Neste primeiro semestre o consumo caiu 7% – em 2 anos caiu 11%. No restante do país, houve crescimento de 1,3%.

São pelo menos três nós que precisam ser desatados, todos resquícios das privatizações desastradas de ativos da Petrobras. O primeiro e o segundo podem começar a ser desatados com a volta da estatal à distribuição. O terceiro é o maior deles. Não seria o caso de reestatizar a Refinaria de Mataripe? É justo pagar R$ 20 a mais pelo botijão apenas por se tratar de uma empresa privada?

 

* Publicado no Jornal A TARDE na coluna Opinião, edição de sexta-feira, 19 de setembro de 2025


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