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A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro terminou com o rebaixamento da escola, após a apuração realizada na última quarta-feira (18/02). A agremiação recebeu apenas duas notas 10 e ficou na última colocação. O desfile foi marcado por forte conteúdo político e também por uma série de ações judiciais que tentaram impedir sua apresentação na Marquês de Sapucaí.

Com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola levou à avenida a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde a infância no Nordeste até a Presidência da República. O desfile retratou a migração da família para São Paulo, o período como torneiro mecânico, a liderança sindical e momentos recentes da vida política nacional.

A comissão de frente representou a rampa do Palácio do Planalto, em referência à última posse presidencial, enquanto alas e alegorias abordaram temas como políticas sociais, pandemia e a prisão do ex-presidente. Também houve críticas ao período do governo de Jair Bolsonaro, o que gerou reação de setores conservadores.

Judicialização e tentativa de censura

Antes mesmo do desfile, o enredo foi alvo de ao menos dez ações judiciais e representações no Ministério Público e no TCU. As iniciativas buscavam impedir a apresentação ou suspender repasses de recursos públicos, sob a alegação de propaganda eleitoral antecipada.

O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, por unanimidade, negou liminar para proibir o desfile, entendendo que a medida poderia configurar censura prévia. Apesar disso, ministros alertaram que eventuais condutas poderiam ser analisadas posteriormente.

Após a apresentação, novas críticas foram feitas por parlamentares da oposição, especialmente ligados à bancada evangélica, em razão de uma das alas intitulada “Neoconservadores em conserva”.

Nota denuncia perseguição política

Na segunda-feira (16), a escola divulgou uma nota pública afirmando ter sido alvo de perseguições durante todo o processo de preparação para o Carnaval. No texto, a agremiação afirma:

“Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval Carioca.”

A escola também denunciou tentativas de interferência em sua autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo e questionamentos sobre a letra do samba.

“Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística […] ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar. Não conseguiram.”

Mesmo diante da pressão e do rebaixamento, a Acadêmicos de Niterói afirmou que não se curvou e destacou a resposta do público como sua principal vitória:

“A aclamação popular foi a nossa resposta. O carinho do público foi o nosso maior prêmio.”

A agremiação ainda questionou o que chamou de “narrativa injusta” no Carnaval de que “quem sobe, desce”, e defendeu um julgamento técnico e transparente.

Encerrando a nota, a escola reafirmou sua posição:

“🔥 EM NITERÓI, O AMOR VENCEU O MEDO 🔥
Seguimos firmes.
Seguimos com o povo.
Seguimos atentos.”

Liberdade de expressão e democracia

O episódio reacende o debate sobre liberdade artística, judicialização da política e tentativas de censura prévia em manifestações culturais. O Carnaval, historicamente, sempre foi espaço de crítica social e política, refletindo disputas, contradições e anseios da sociedade brasileira.

Ao levar para a avenida a trajetória de um operário que chegou à Presidência da República, a escola colocou em pauta não apenas uma biografia, mas também o papel da cultura como instrumento de expressão popular e resistência democrática.

 


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