Por Eric Gil e Marcos André*
A Petrobrás publicou seu resultado financeiro para o terceiro trimestre em 06 de novembro: um lucro líquido de R$ 32,7 bilhões. Isso ocorreu ao mesmo tempo em que assembleias de Norte a Sul do país defenderam a rejeição do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) proposto pela estatal. Esses dois eventos se entrelaçam na discussão da Petrobrás que precisamos e queremos.
Desde maio, a presidente da Petrobrás, Magda Chambriard, vem dizendo que a estatal precisa “apertar os cintos” por conta da queda do preço do barril do petróleo tipo Brent. Isto se traduziria primeiramente em corte de investimentos, e depois em corte de tudo o que é despesa cotidiana, que já vem acontecendo de viagens de trabalho há dificuldades com como ACT a regra é sempre a mesma tudo para acionistas e restrições e aperto.
É fato que temos um Brent mais baixo em relação aos anos anteriores. Em 2022 o Brent médio foi de US$ 101, em 2023 de US$ 83 e 2024 de US$ 81. No terceiro trimestre deste ano a média ficou em US$ 69, e enquanto escrevemos este texto está em US$ 65. Por outro lado, o preço dos derivados tem caído muito menos. No terceiro trimestre o Preço derivados básicos – Mercado interno (R$/bbl) ficou em R$ 460,54, apenas 5,7% abaixo do mesmo período do ano anterior. Isso ocorre porque a Petrobrás vem mantendo preços estáveis, mesmo com a queda dos preços internacionais.
Mesmo com preços menos favoráveis, a Petrobrás obteve um lucro bastante razoável. Este foi o sétimo maior lucro líquido trimestral desde 2021 (7º de 19 trimestres), quando os preços começavam a atingir patamares históricos. Nada mal, mas isso às custas da sociedade mantendo preços até superior ao PPI em evidente descumprimento à orientação do presidente Lula.
Mas o resultado só veio robusto por conta do resultado de investimentos passados. A Petrobrás atingiu neste trimestre seu maior nível de produção de petróleo da história, com 3,144 Mboed. Foi um crescimento de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior e 8% em relação ao trimestre passado. Isso se deve principalmente pelo atingimento do topo de produção do FPSO Almirante Tamandaré, no campo de Búzios, e pelo aumento da capacidade de produção do FPSO Marechal Duque de Caxias, no campo de Mero – alguns dos maiores investimentos recentes da estatal.
Assim como a manutenção do parque de refino e retomada dos seus investimentos se mostram agora fundamentais. Atuar no downstream sempre foi uma forma de amortizar variações de preços do petróleo, e como mostramos anteriormente vem cumprindo muito bem esta função em 2025.
Isto deve apontar uma lição para a direção da Petrobrás. Não é cortando custos que a empresa terá resultados sustentáveis. Muito pelo contrário. Só tivemos mais um ótimo resultado da Petrobrás porque os investimentos de alguns anos atrás estão surtindo seus efeitos.
E não são apenas os grandes investimentos que cimentam este caminho.
Se há alguma coisa que é irresponsável e desperdício de dinheiro da companhia, essa é a sua política de dividendos.
Em julho de 2021 o então presidente da estatal, Silva e Luna, adotou uma nova política de dividendos, que definia o pagamento de proventos equivalentes a 60% do Fluxo de Caixa Livre da empresa – quando a dívida bruta não ultrapassar os US$ 65 bilhões. Em julho de 2023, Jean Paul Prates modificou esta política, passando para 45% do Fluxo de Caixa Livre. Estas políticas, aliadas a resultados bastante robustos da companhia por conta de preços recordes e aumento na produção, além de pagamentos de dividendos extraordinários (o que excedia a fórmula), geraram montantes inimagináveis de dividendos para os acionistas.
A Petrobrás pagou um montante de R$ 501,4 bilhões em dividendos (valores atualizados para dez/24) entre 2021 e 2024. A título de comparação, o atual valor de capitalização de mercado da Petrobrás é de R$ 443 bilhões. Ou seja, em quatro anos a estatal distribuiu mais dividendos do que ela vale atualmente no mercado. Neste ano já foram aprovados mais R$ 32,6 bilhões em dividendos – isso porque cessaram, por ora, os dividendos extraordinários.
Para se ter uma ideia, estes dividendos foram pagos enquanto o endividamento da empresa aumentava. A dívida líquida cresceu US$ 7 bilhões desde o fim de 2024. Isto indica que a política de dividendos excessivos foi totalmente contraproducente e aumentou, sem necessidade, a dívida da empresa.
Se há algo irresponsável e fora dos parâmetros normais de uma empresa com equilíbrio financeiro é esta política de dividendos. Antes de qualquer arrocho, antes de qualquer corte em cima dos trabalhadores, em cima dos investimentos, temos que mudar esta política. Já demonstramos aqui (Politica de dividendos da Petrobrás e excessiva e ações renderam quase 6 vezes a média do restante do ibovespa) que a Petrobrás se deslocou de qualquer outra empresa do país. Não há nada que justifique a manutenção desta política.
A reconstrução da Petrobrás passa pela superação da política de destruição aplicada pelos governos golpistas, cujo objetivo era descapitalizar a empresa criando as condições de privatização. Reconstruir a Petrobrás exige coragem para enfrentar a política de dividendos que sangra a empresa com a imposição de restrições para a gestão e preços elevados para os combustíveis.
*Eric Gil é economista do Ibeps e da AEPET-BA e Marcos André é presidente da AEPET-BA
