Resumo do artigo de Fernando Alcoforado*
A Inteligência Artificial (IA) desponta como uma das mais profundas transformações tecnológicas da história contemporânea. Capaz de simular capacidades cognitivas humanas — como raciocínio, percepção e tomada de decisão — a IA já impacta governos, indústrias, mercados financeiros e o cotidiano das pessoas. Entretanto, se por um lado representa oportunidades extraordinárias, por outro traz riscos políticos, econômicos e sociais que exigem análise crítica e ação coordenada.
No artigo, Fernando Alcoforado alerta que, até meados de 2050, poderemos assistir ao advento da chamada “Superinteligência Artificial”, quando sistemas computacionais poderão superar a inteligência humana. Nesse cenário, o destino da humanidade poderá depender das decisões de máquinas superinteligentes. A questão central não é apenas tecnológica, mas política e civilizatória: quem controla a IA? A serviço de quais interesses ela será utilizada?
As principais ameaças da IA
O autor identifica onze grandes riscos associados ao avanço desregulado da Inteligência Artificial.
-
Ameaça existencial e perda de controle humano
À medida que decisões críticas são transferidas para sistemas automatizados, cresce o risco de perda de controle humano. Sistemas superinteligentes podem desenvolver objetivos desalinhados dos valores humanos. Para evitar esse cenário, o autor defende limites técnicos à autonomia das máquinas, supervisão humana contínua, auditorias obrigatórias, certificações de segurança e a proibição internacional de IAs totalmente autônomas em áreas sensíveis.
-
Militarização e guerras autônomas
A corrida armamentista envolvendo IA pode reduzir o custo da guerra e aumentar sua frequência. Armas letais autônomas, capazes de selecionar e atacar alvos sem intervenção humana, representam grave ameaça à segurança global. A solução apontada inclui tratados internacionais que proíbam tais armas, garantam o “humano no comando” e estabeleçam inspeções internacionais.
-
Desemprego estrutural em massa
A robotização e a automação inteligente poderão eliminar milhões de empregos, inclusive em atividades intelectuais. Isso tende a ampliar desigualdades sociais e gerar instabilidade política. Como alternativas, o autor propõe renda básica universal, redução da jornada de trabalho, requalificação profissional em larga escala e tributação dos ganhos extraordinários das grandes empresas de tecnologia para financiar políticas sociais.
-
Manipulação da democracia
A IA pode ser usada para produzir desinformação, deepfakes e propaganda automatizada, influenciando eleições e corroendo instituições democráticas. Para enfrentar essa ameaça, são defendidas políticas de transparência algorítmica, controle público sobre plataformas digitais, educação midiática desde a escola e restrições ao uso de microtargeting político.
-
Vigilância total e fim da privacidade
Governos e corporações podem utilizar IA para monitorar populações em larga escala, ampliando práticas de vigilância e restringindo liberdades civis. O enfrentamento exige leis rigorosas de proteção de dados — como a LGPD no Brasil —, limitação da vigilância sem ordem judicial e responsabilização legal por abusos.
-
Dependência excessiva da tecnologia
O uso intensivo da IA pode reduzir o pensamento crítico, a criatividade e a autonomia humana. O autor sugere políticas educacionais que valorizem habilidades humanas, estímulo à “inteligência combinada” homem-máquina e práticas sociais que limitem a hiperconectividade e promovam equilíbrio digital.
-
Concentração de poder tecnológico
Poucas corporações e países concentram o desenvolvimento da IA, gerando dependência tecnológica e desequilíbrios geopolíticos. Para enfrentar essa concentração, são necessárias políticas antitruste globais, incentivo a modelos abertos e públicos de IA e estruturas de governança internacional que assegurem acesso equitativo.
Organismos como a Organização das Nações Unidas (ONU) e entidades internacionais de padronização poderiam desempenhar papel central na harmonização de normas globais.
-
Exclusão digital
A desigualdade no acesso às tecnologias de IA pode ampliar divisões sociais já existentes. O autor defende programas públicos de inclusão digital, universalização da conectividade, centros comunitários de tecnologia e auditorias independentes para evitar discriminação algorítmica.
-
Segurança digital
Criminosos podem utilizar IA para ampliar a sofisticação de ataques cibernéticos. Paradoxalmente, a própria IA pode ser usada como ferramenta defensiva, identificando ameaças em tempo real e fortalecendo sistemas de proteção. Auditorias de segurança, criptografia avançada e responsabilização de desenvolvedores são medidas necessárias.
-
Instabilidade financeira global
O uso de IA em mercados financeiros — como no trading algorítmico — pode desencadear crises rápidas e sistêmicas. O autor sustenta que o fracasso do modelo neoliberal agrava esse risco e propõe a adoção do Keynesianismo em escala global, com coordenação internacional das políticas econômicas para garantir estabilidade e pleno emprego.
-
Ausência de governança global
Talvez o ponto central do artigo seja a defesa da criação de uma governança global efetiva para regular o desenvolvimento e uso da IA. Segundo o autor, apenas um governo democrático mundial — com parlamento global e corte internacional fortalecida — poderia assegurar coordenação econômica, respeito ao Direito Internacional, estabilidade global e uso da IA em benefício da humanidade.
Nesse contexto, a reestruturação da própria Organização das Nações Unidas é apresentada como passo fundamental para construir um sistema internacional capaz de enfrentar os riscos tecnológicos do século XXI.
Dois futuros possíveis
Fernando Alcoforado conclui que a humanidade se encontra diante de dois caminhos:
- Distopia — marcada por desemprego em massa, vigilância total, guerras autônomas e concentração extrema de poder, com erosão da democracia.
- Utopia possível — com abundância material, redução do trabalho alienado, avanços científicos e médicos, sustentabilidade ambiental e uso ético da tecnologia.
A Inteligência Artificial, portanto, não é neutra: seu impacto dependerá das escolhas políticas, econômicas e éticas feitas no presente.
O autor sustenta que os riscos da IA não podem ser eliminados completamente, mas podem ser reduzidos por meio de regulação, planejamento econômico, cooperação internacional e participação social ativa. A tecnologia deve ser desenvolvida de forma ética, inclusiva, transparente e sustentável.
Para a sociedade brasileira — e particularmente para trabalhadores e profissionais estratégicos como os do setor energético — o debate sobre soberania tecnológica, regulação pública e planejamento estatal é decisivo. A IA pode servir ao desenvolvimento nacional e ao bem-estar coletivo ou aprofundar desigualdades e dependências.
O futuro ainda está em disputa. Evitar a distopia e construir a utopia possível depende da capacidade da humanidade de colocar a tecnologia a serviço da vida, da democracia e da justiça social.
* Fernando Alcoforado, 86, é associado emérito da AEPET-BA, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona.
Para ler a íntegra do artigo acesse
Assista ao vídeo
