A Lavagem do Bonfim, que reúne quase dois milhões de pessoas nas ruas de Salvador todos os anos, é muito mais do que uma festa religiosa. Símbolo maior do sincretismo religioso brasileiro, a celebração carrega em sua história a marca da fé do povo de santo, da resistência do povo negro e do trabalho forçado de africanos escravizados, base material sobre a qual a cidade e muitos de seus monumentos foram erguidos. Trata-se de uma manifestação que conecta passado e presente na luta permanente contra o racismo e a intolerância religiosa.
A origem da devoção ao Senhor do Bonfim remonta ao século XVIII e expõe uma das contradições centrais da formação social brasileira: a convivência entre devoção religiosa, prestígio social e a violência da escravidão. O capitão português Teodósio Rodrigues de Faria, considerado um dos principais benfeitores da Igreja do Senhor do Bonfim, foi responsável por trazer a imagem do Cristo crucificado de Portugal para Salvador e por financiar parte significativa da construção e da decoração do templo. Esse investimento lhe garantiu lugar de destaque na irmandade, reconhecimento público e sepultamento no interior da igreja.
Pesquisas históricas, no entanto, revelam que Teodósio atuou intensamente no tráfico de africanos escravizados na década de 1750. Essa face de sua trajetória costuma ser omitida nas homenagens feitas durante a festa, que hoje é celebrada como expressão de fé e paz, mas que também carrega as marcas da violência colonial e da exploração humana que sustentaram a riqueza e o poder da elite da época.
A lógica de construção de símbolos religiosos e urbanos com base na exploração da mão de obra escravizada não se restringe à Igreja do Bonfim. Ela se repete em outro marco de Salvador: o Elevador Lacerda. Embora não tenha sido erguido para homenagear um traficante de pessoas, a obra só foi possível graças à fortuna acumulada por Antonio Francisco de Lacerda, pai de seu idealizador, com o tráfico ilegal de africanos, mesmo após a proibição dessa prática. Os lucros dessas viagens negreiras financiaram não apenas o Elevador, mas também empreendimentos industriais, financeiros e a consolidação de uma elite econômica.
Reconhecer que a Igreja do Bonfim e o Elevador Lacerda foram erguidos com recursos oriundos da exploração e da violência contra povos africanos não significa negar sua importância cultural e simbólica. Significa ampliar a compreensão sobre o passado e enfrentar as histórias silenciadas que ainda moldam as desigualdades do presente. Em uma cidade marcada pela resistência negra, esse debate é fundamental para a construção da justiça histórica.
Na Lavagem do Bonfim, o povo negro transformou opressão em resistência. Adeptos do candomblé incorporaram à festa elementos de sua ancestralidade — tambores, danças, comidas ritualísticas e reverências a Oxalá — estabelecendo uma ligação simbólica entre o Senhor do Bonfim e o orixá associado à criação do mundo, à paz e à harmonia. Mais do que expressão de fé, o sincretismo religioso foi uma estratégia sofisticada de sobrevivência cultural e política diante de um sistema que criminalizava as religiões de matriz africana.
Esse processo ocorreu em meio a perseguições severas. No final do século XIX, essas manifestações passaram a ser atacadas pelas autoridades religiosas e civis, rotuladas de “blasfêmia”, “bruxaria” e “paganismo”, expressões evidentes de um racismo estrutural que atravessa a história do Brasil. Em 1889, uma portaria chegou a proibir a lavagem das igrejas durante as festas religiosas, numa tentativa explícita de excluir o povo negro dos espaços sagrados.
Foram as mulheres negras, protagonistas dessa história de resistência, que garantiram a continuidade da tradição. Impedidas de lavar o interior da Igreja, elas mantiveram o ritual do lado de fora, lavando as escadarias da Colina Sagrada com água de cheiro, flores e fé. Um gesto simbólico e político que se repete até hoje, sempre na segunda quinta-feira após a Festa de Reis.
Atualmente, o cortejo percorre cerca de oito quilômetros da Cidade Baixa até o Bonfim, reunindo baianas, manifestações culturais, grupos musicais, movimentos sociais e blocos afro como Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy e Olodum. A dimensão popular da festa é resultado direto das estratégias ancestrais de resiliência da comunidade negra e do povo de santo, que transformaram a Lavagem do Bonfim em uma das maiores expressões de resistência cultural do país.
Reparação histórica: da fé à luta política
A Lavagem do Bonfim também é espaço de luta política e afirmação de direitos. Durante o cortejo, entidades do movimento negro, como o Instituto Afroamérica Bahia, levantam a bandeira da aprovação da PEC da Reparação (PEC 27/2024). Passados 137 anos do fim formal da escravidão, o Estado brasileiro segue devendo ao povo negro o acesso à terra, à educação, ao trabalho digno e à plena cidadania.
A reparação histórica não se limita a indenizações financeiras. Trata-se do reconhecimento constitucional de que houve violações sistemáticas de direitos e de que existe uma dívida histórica construída pelo Estado, pelas empresas e por uma sociedade que se beneficiou da exploração do trabalho escravizado. Sem esse reconhecimento, não há justiça; sem justiça, não há democracia plena.
A Lavagem do Bonfim segue sendo, portanto, um ato de fé, mas também de denúncia e esperança. Fé na ancestralidade, na paz simbolizada por Oxalá e na força coletiva do povo negro. Denúncia contra o racismo religioso e a exclusão histórica. E esperança de que a reparação deixe de ser promessa e se transforme em política concreta.
Reconhecimento é justiça.
Reparação é urgência.
Sem justiça histórica, não há futuro possível.
Reparação já!
