Com o fim do Carnaval, o debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do fim da escala 6×1 deve ganhar novo fôlego na Câmara dos Deputados. Reportagem da Agência Pública mostra que parlamentares articulam um acordo em torno de um texto mais brando, enquanto setores empresariais intensificam a pressão para evitar mudanças mais profundas na jornada de trabalho.
A PEC em tramitação reúne propostas distintas: a da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que prevê jornada 4×3 e 36 horas semanais; e a do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que negocia uma versão considerada mais moderada, com modelo 5×2 e 40 horas semanais. Segundo levantamento citado, 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1.
De acordo com a Pública, representantes da indústria e do comércio se posicionam contra a redução mais ampla da jornada, mas admitem negociar um texto alternativo que preserve as atuais 44 horas semanais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que a mudança poderia elevar os custos trabalhistas em até 20,7% e alerta para riscos de desemprego e perda de competitividade — argumento que tem sido repetido por parlamentares ligados ao setor empresarial.
Já reportagem do The Intercept Brasil destaca o que chama de “terrorismo econômico” promovido por segmentos das elites políticas e econômicas. O veículo traça um paralelo histórico entre as reações atuais e as resistências registradas em momentos como a criação do 13º salário, do salário mínimo e até da abolição da escravatura, quando previsões apocalípticas sobre colapso econômico também foram amplamente difundidas.
Segundo o Intercept, a retórica de que a redução da jornada seria “um tiro no coração da economia” repete um padrão histórico de oposição à ampliação de direitos trabalhistas. O portal lembra ainda que previsões semelhantes foram feitas recentemente contra a valorização do salário mínimo, sem que se confirmassem os cenários de explosão do desemprego anunciados à época.
A Câmara pretende votar a proposta até maio. Paralelamente, setores da oposição articulam a chamada “PEC da Liberdade da Jornada”, que prioriza a negociação direta entre empregado e empregador — movimento visto por críticos como tentativa de esvaziar o alcance da proposta original.
Para além do debate técnico sobre carga horária e impacto econômico, a tramitação da PEC revela uma disputa mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento e as condições de trabalho no país. Em um contexto de crescimento da produtividade ao longo das últimas décadas, defensores da mudança argumentam que a reorganização da jornada pode representar avanço civilizatório, enquanto opositores insistem no discurso de riscos à economia.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 também envolve uma reflexão central: a quem servem as tecnologias aplicadas ao trabalho? O avanço tecnológico precisa estar associado à melhoria das condições de vida da classe trabalhadora, garantindo tempo e oportunidades para qualificação profissional e desenvolvimento intelectual — fatores que, inclusive, elevam a produtividade de forma sustentável.
Desde 1988, quando a atual jornada foi estabelecida na Constituição, o mundo do trabalho passou por uma transformação profunda. Saímos da máquina de escrever para a inteligência artificial, dos equipamentos pneumáticos à Indústria 4.0, da automação inicial aos sistemas digitais integrados. Diante desse salto tecnológico, é legítimo questionar: se a produtividade cresceu com a modernização, por que a jornada permanece praticamente inalterada para os trabalhadores?
