A necessidade de retomada da antiga Refinaria Landulpho Alves (RLAM), atual Refinaria de Mataripe, voltou ao centro do debate na Bahia diante da disparada dos preços dos combustíveis e do gás de cozinha. Para especialistas e entidades do setor petrolífero, a recompra da unidade pela Petrobrás é estratégica não apenas para reduzir preços, mas também para recuperar a soberania energética e fortalecer a economia baiana.
A discussão ganhou força após a Petrobrás confirmar, em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que avalia oportunidades de negócio envolvendo a refinaria, atualmente operada pela Acelen, controlada pelo fundo Mubadala Capital. O tema também foi reforçado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que declarou publicamente a intenção do governo de retomar o controle da unidade.
Para o ex-gerente da UN-BA e especialista do setor, Antonio Rivas, a Petrobrás precisa acelerar o processo de negociação para reduzir os impactos econômicos sobre a população baiana.
Segundo Rivas, a retomada da refinaria poderia contribuir diretamente para diminuir os preços dos combustíveis e conter a inflação regional, agravada pelo aumento internacional do petróleo em meio aos conflitos no Oriente Médio. “Caso possível, seria firmado um acordo prévio onde a Petrobrás assumiria, imediatamente, a operação da Refinaria, enquanto a negociação se desenvolve”, defende Rivas.
O ex-gerente destaca ainda que a recompra possui dimensão econômica e política, por envolver a recuperação da primeira refinaria do Brasil e da segunda maior em capacidade operacional.
Privatização ampliou preços e instabilidade
Desde a privatização da RLAM, em 2021, os consumidores baianos passaram a conviver com reajustes mais frequentes e preços de combustíveis e gás de cozinha superiores aos praticados pela Petrobrás em outras regiões do país. O cenário tem ampliado o impacto no orçamento das famílias e também nos custos do transporte e da atividade econômica no estado.
De acordo com estimativa do economista Eric Gil Dantas, do Ibeps e da AEPET-BA, os baianos já pagaram, desde a privatização, cerca de R$ 3,25 bilhões a mais devido aos preços mais elevados praticados pela Refinaria de Mataripe. Desse total, aproximadamente R$ 691,7 milhões correspondem à gasolina, R$ 1,34 bilhão ao diesel e R$ 1,21 bilhão ao GLP (gás de cozinha).
A estimativa vai até fevereiro, e não abarca os dados pós início da guerra por ainda não terem sido publicados, quando a diferença de preços chegou a quase 70% no caso do diesel.
Confira a tabela abaixo:

Os impactos são sentidos diretamente pela população. Em Salvador, o diesel S-10 alcançou média de R$ 8,20 por litro em abril, pressionando o transporte, a logística e o preço dos alimentos.
Monopólio regional preocupa entidades
A AEPET-BA critica desde o início a venda da refinaria, apontando que a privatização criou um monopólio regional privado com forte influência sobre os preços praticados no estado.
Atualmente, a Acelen controla integralmente o mercado baiano de diesel e cerca de 79% da gasolina comercializada na Bahia. Para a entidade, a fragmentação do sistema Petrobrás compromete a capacidade da estatal de atuar como reguladora de preços e garantir abastecimento com modicidade tarifária.
A situação também afeta o gás de cozinha. Após a venda da Liquigás, o botijão passou a pesar ainda mais no orçamento das famílias baianas, chegando em muitos casos a ultrapassar R$ 150 ao consumidor final.
Reconstrução do sistema Petrobrás
Para especialistas do setor, a recompra da antiga RLAM representa um passo importante para reconstruir a Petrobrás integrada — do poço ao posto — fortalecendo investimentos, ampliando a capacidade de modernização industrial e contribuindo para o desenvolvimento econômico da Bahia.
Antonio Rivas ressalta ainda que a reintegração da refinaria ao Sistema Petrobrás pode impulsionar novamente setores estratégicos, como o Polo Petroquímico de Camaçari, além de garantir maior estabilidade operacional e segurança energética para o país.
Mais do que uma disputa comercial, o debate sobre a RLAM envolve soberania nacional, desenvolvimento regional e a defesa de combustíveis e gás de cozinha a preços justos para a população brasileira.
