Compartilhe

Por Eric Gil Dantas*

A Petrobras divulgou, na noite desta terça-feira, 11, o resultado do 1º trimestre de 2026. A companhia registrou lucro líquido de R$ 32,7 bilhões no período – valor 109,9% superior ao do 4º trimestre de 2025, e 7,2% abaixo do 1T25. O lucro recorrente, que exclui efeitos extraordinários e oferece uma leitura mais real do desempenho operacional, foi de R$ 23,8 bilhões, praticamente estável em relação ao 1T25 (R$ 23,6 bilhões) e 7,2% inferior ao 4T25.

A diferença entre o lucro total e o recorrente no trimestre é expressiva: R$ 8,9 bilhões. Essa diferença é explicada, principalmente, por ganhos com variação cambial – reflexo da valorização do real frente ao dólar – e pela reversão de impairment de ativos. Esses são efeitos contábeis que não representam entrada de caixa e que podem se reverter nos próximos trimestres. Por isso, é o lucro recorrente que melhor descreve o resultado operacional real da estatal.

O bom resultado foi impulsionado por dois fatores principais: a alta do Brent e o recorde de produção. O preço médio do barril no trimestre foi de US$ 80,61, alta de 26,6% em relação ao 4T25 (US$ 63,69) e de 6,5% frente ao 1T25 (US$ 75,66). A elevação do preço do Brent ocorreu no início de março, sendo assim a média entre janeiro e março é bem menor do que o que estamos vendo hoje, girando em torno dos US$ 100. Já a produção de óleo e gás cresceu 3,7% em relação ao 4T25, sustentada pela entrada em operação de novas plataformas no pré-sal, com destaque para os campos de Búzios e Sépia.

A própria companhia reconhece, no relatório, que o aumento recente nos preços do petróleo e o recorde de produção ainda não se refletiram plenamente nas receitas do 1T26. Isso se deve a dois fatores: o primeiro é a defasagem natural entre o embarque e o reconhecimento contábil da venda, que ocorre apenas quando o navio chega ao porto de destino. O segundo diz respeito à lógica de precificação das exportações – especialmente para o mercado asiático, maior destino do petróleo brasileiro, onde o preço é fixado com base nas cotações do mês anterior ao da chegada da carga. Portanto, a elevação nos preços após o início do conflito no Oriente Médio deverá se refletir fortemente nas receitas do 2T26.

O EBITDA Ajustado recorrente somou R$ 61,7 bilhões, alta de 4,5% frente ao 4T25, sustentado pelo aumento nas vendas de derivados e pela redução dos custos exploratórios. O fluxo de caixa operacional foi de R$ 44 bilhões, queda de 10,9% em relação ao 1T25 e de 19,9% frente ao 4T25. Esse recuo foi puxado por efeito negativo de capital de giro – especialmente o aumento dos estoques, reflexo das exportações em andamento que não foram reconhecidas como receita no trimestre, e a piora na rubrica de fornecedores.

O segmento de Refino, Transporte e Comercialização (RTC) apresentou resultado expressivo: lucro bruto de R$ 23,75 bilhões, alta de 82,8% em relação ao 4T25. Grande parte desse salto se deve ao efeito do giro dos estoques num cenário de Brent em alta – o mesmo mecanismo que havia pressionado o resultado no trimestre anterior, quando o Brent caiu. A margem EBITDA do segmento subiu de 8% para 17%. O fator de utilização das refinarias (FUT) cresceu 6 pontos percentuais, atingindo 95% no trimestre e 97,4% em março (maior utilização desde março de 2014). Isto reduziu a necessidade de importação de derivados num momento de preços internacionais elevados. Em março a estatal também atingiu o recorde de produção de diesel, fundamental para amenizar os efeitos da guerra.

A política de preços da Petrobras está se mostrando totalmente viável em momentos de instabilidade no mercado, já que respondeu alta de preços internacionais com aumento de produção, e não com explosão de preços como nos governos Temer (2018) e Bolsonaro (2021 e 2022).

Os investimentos totalizaram US$ 5,1 bilhões no 1T26, alta de 25,6% em relação ao 1T25, o que sinaliza continuidade na execução do plano estratégico. O segmento de Exploração e Produção concentrou 87,4% do Capex. Destaca-se o início antecipado da operação da plataforma FPSO P-79 (Búzios 8), em 1º de maio de 2026, com capacidade de 180 mil barris de óleo por dia – o que deve contribuir para o crescimento da produção no 2T26. Outros quatro sistemas de produção estão previstos para entrar em operação em 2027, reforçando a trajetória de crescimento da produção.

A dívida bruta chegou a US$ 71,2 bilhões em março de 2026, alta de 2% em relação a dezembro de 2025 e de 10,4% frente a março de 2025. A dívida líquida atingiu US$ 62,1 bilhões. O índice dívida líquida/EBITDA Ajustado permanece em 1,43x, dentro do patamar considerado confortável pela companhia. O custo médio da dívida subiu ligeiramente de 6,7% para 6,8% ao ano. A situação do endividamento merece acompanhamento, já que a companhia segue financiando parte dos investimentos com ampliação do passivo.

A política de dividendos segue a mesma lógica. No 1T26, a companhia aprovou R$ 9 bilhões em proventos. Ao longo dos últimos 12 meses, foram pagos dividendos em volume muito superior ao que seria sustentável sem crescimento da dívida. Manter essa política de distribuição generosa enquanto se amplia o endividamento é uma escolha que beneficia acionistas no curto prazo, mas pode comprometer a capacidade de financiamento autônomo dos investimentos no médio prazo. Seria mais prudente reduzir a distribuição de dividendos de modo que a própria geração de caixa financie a expansão dos investimentos.

Para o 2T26, as perspectivas são de resultado ainda mais forte: o Brent já subiu significativamente desde o início do conflito no Oriente Médio, a produção deve continuar crescendo com a entrada da P-79 e o efeito das exportações represadas no 1T26 deve ser reconhecido contabilmente. Isso demonstra que a Petrobras pode e deve manter os preços dos derivados em meio à guerra, e que isto não é nenhum grande sacrifício para a companhia, que manterá com lucros muito acima dos R$ 100 bilhões ao ano.

*Eric Gil Dantas é economista do Ibeps e da AEPET-BA


Compartilhe