Compartilhe

 

Em 03 de outubro, a Petrobrás faz 73 anos. Foi na Bahia que começou a indústria do petróleo e pontapé inicial para o surgimento dessa empresa gigante brasileira

A história da Petrobrás começa antes mesmo de a empresa existir — e começa na Bahia. Foi em Lobato, no subúrbio de Salvador, que o petróleo jorrou pela primeira vez no Brasil, em janeiro de 1939, transformando em realidade uma riqueza que durante décadas muitos diziam que o país não possuía.

O episódio levou o governo de Getúlio Vargas a reforçar o controle estatal sobre as reservas do Recôncavo Baiano. Para José Augusto Ribeiro, em A História da Petrobrás, a descoberta de Lobato foi um daqueles acontecimentos que mudaram o curso da história. Poucos anos depois, a Bahia também receberia a Refinaria de Mataripe, construída para processar, inicialmente, o petróleo produzido no Recôncavo. A indústria brasileira do petróleo nascia, assim, com forte participação baiana.

A descoberta em Lobato fortaleceu uma disputa que atravessaria décadas: quem deveria controlar o petróleo brasileiro? O Estado ou as grandes companhias internacionais? A resposta ganhou as ruas com a campanha “O Petróleo é Nosso”, que mobilizou setores da sociedade brasileira nas décadas de 1940 e 1950.

No livro, Ribeiro mostra como os debates sobre a soberania do petróleo ultrapassaram o Congresso e ganharam dimensão popular. Eleito novamente presidente em 1950, Getúlio Vargas incorporou essa agenda ao seu projeto de desenvolvimento nacional. Depois de quase dois anos de debates no Congresso, em 3 de outubro de 1953, Vargas sancionou a Lei nº 2.004, criando a Petrobrás e estabelecendo o monopólio estatal do petróleo. Dez meses depois, em 1º de agosto de 1954, a empresa assumiria efetivamente o controle da indústria petrolífera estatal.

A criação da Petrobrás ocorreu em meio a uma intensa disputa política. Na narrativa de Ribeiro, a empresa nasceu sob forte pressão de interesses contrários ao monopólio estatal e, em agosto de 1954, tornou-se um dos centros da crise que culminaria no suicídio de Getúlio Vargas.

A Petrobrás, porém, sobreviveu ao seu criador e iniciou uma trajetória marcada pela construção de um parque nacional de refino, pela formação de quadros técnicos e pelo desenvolvimento de tecnologia própria. A RLAM fez parte dessa estruturação, pois o petróleo produzido no Recôncavo precisava ser transformado em derivados dentro do país, e não simplesmente exportado como matéria-prima.

O desbravamento no mar

Nas décadas seguintes, os limites da produção terrestre levaram a Petrobrás a olhar para o mar. As primeiras pesquisas na plataforma continental haviam começado ainda no governo Juscelino Kubitschek, mas a exploração sistemática ganhou força a partir de 1967. Em 1968, a empresa perfurou seu primeiro poço marítimo, no Espírito Santo, e encontrou petróleo em Guaricema, em Sergipe. Era o início de uma mudança tecnológica decisiva.

Pouco depois, a Petrobrás avançaria sobre a Bacia de Campos, onde, em dezembro de 1974, a descoberta do campo de Garoupa confirmaria o enorme potencial petrolífero do mar brasileiro. Em 1977, o campo de Enchova entrou em produção, inaugurando a produção da Bacia de Campos e impulsionando o desenvolvimento de tecnologias para águas profundas.

Esse movimento ganhou urgência com a crise internacional do petróleo de 1973. Segundo Ribeiro, o preço do barril saltou de US$ 3 para US$ 12 e, no final daquele ano, o Brasil ainda importava quase 80% do petróleo que consumia, gastando cerca de US$ 3 bilhões anuais com essas importações.

A crise deixou evidente a vulnerabilidade energética do país e reforçou a necessidade de ampliar a produção nacional. O caminho escolhido exigia tecnologia, investimento e capacidade de enfrentar um ambiente extremamente complexo: o fundo do mar. A experiência acumulada pela Petrobrás nas décadas seguintes faria do Brasil uma referência mundial na exploração em águas profundas e ultraprofundas.

Pré-sal e autossuficiência

A trajetória tecnológica construída ao longo de décadas abriria caminho para uma nova fronteira: o pré-sal. Na década de 2000, a Petrobrás passou a identificar gigantescas reservas na Bacia de Santos. Nesse processo, ganhou destaque o geólogo Guilherme Estrella, que assumiu a Diretoria de Exploração e Produção da companhia no primeiro governo Lula e, segundo Ribeiro, foi o principal condutor da descoberta e do desenvolvimento inicial do pré-sal.

A produção começou em 2008, e as novas descobertas levaram o país a rever seu marco regulatório. Estrella também defendeu a importância de a Petrobrás atuar como operadora do pré-sal, associando a exploração das reservas à formação de uma cadeia industrial e tecnológica brasileira.

Mas a história da Petrobrás também é marcada por disputas sobre seu papel e seu controle. Nos anos 1990, durante os governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, ganhou força o projeto neoliberal que reduziu a participação direta do Estado na economia. Ribeiro relata que, no governo Collor, foram extintas subsidiárias da Petrobrás e surgiram propostas de alteração do monopólio estatal.

No governo FHC, a mudança avançou e em 1995 foi aprovada a emenda constitucional que abriu a exploração do petróleo à participação de outras empresas e, em 1997, a Lei do Petróleo instituiu o regime de concessão. Na interpretação de Ribeiro, esse processo representou uma ruptura com o modelo estatal construído desde Vargas.

De Lobato ao pré-sal, a trajetória da Petrobrás revela uma história que ultrapassa os limites de uma empresa. É a história da construção de conhecimento tecnológico, de uma indústria nacional e de sucessivas disputas em torno do destino de uma riqueza estratégica.

A Bahia esteve na origem dessa trajetória, quando o petróleo brotou do subsolo de Salvador e ajudou a demonstrar que o Brasil tinha petróleo. Sete décadas depois, a Petrobrás chegaria a águas ultraprofundas para encontrar reservas muito maiores.

Entre uma ponta e outra estão gerações de trabalhadores, engenheiros, geólogos e pesquisadores que ajudaram a transformar uma descoberta em capacidade industrial. A história da Petrobrás, como mostra José Augusto Ribeiro, é também parte da história da busca brasileira por soberania energética.

Fonte: A História da Petrobrás, José Augusto Ribeiro


Compartilhe