Há mais de dois séculos, nas ruas de Salvador, um grito ecoava pelas portas das igrejas e nos becos da cidade colonial. “Animai-vos, povo bahiense, que está por chegar o tempo feliz da nossa liberdade, o tempo em que seremos todos irmãos, o tempo em que seremos todos iguais.” Essas palavras, grafadas em panfletos manuscritos no dia 12 de agosto de 1798, representavam muito mais que um simples chamado à revolta. Eram a expressão de um sonho radical: a construção de uma República abolicionista que colocasse a libertação dos escravizados no centro de seu projeto político.
A Conjuração Baiana, conhecida também como Revolta dos Búzios ou Revolta dos Alfaiates, nasceu em uma Bahia marcada pela escassez de alimentos, pelo aumento dos preços, pela pesada carga tributária e pelas profundas desigualdades impostas pelo sistema colonial e escravista. Diferentemente da Inconfidência Mineira, que teve composição predominantemente elitista, a Revolta dos Búzios incorporou trabalhadores pobres, negros, mestiços e, crucialmente, mulheres negras que compreendiam que a libertação dos escravizados era inseparável da transformação radical da sociedade.
Hoje, quando o Instituto Afroamérica Bahia reafirma seu compromisso inabalável com as lutas do povo negro—em especial a reparação histórica, a educação antirracista e o empoderamento das mulheres negras—não podemos deixar de honrar aquelas que, há mais de dois séculos, desafiaram o sistema escravista e colonial com coragem, inteligência e determinação. As mulheres que participaram da Conjuração Baiana não foram coadjuvantes. Foram protagonistas de uma revolução que ousou imaginar outro Brasil.
As mulheres revolucionárias: protagonistas da história
Entre as lideranças do movimento estavam os alfaiates João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira, e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens. Mas ao lado desses nomes que a história tradicional privilegia, estavam mulheres negras cuja participação foi fundamental para a articulação, organização e sustentação da conspiração.
Ana Romana, Domingas Maria do Nascimento, Luiza Francisca de Araújo, Lucrécia Maria Gercent e Vicência integram essa história de resistência. Essas mulheres circulavam pelas ruas de Salvador, participavam de encontros clandestinos e contribuíam para a disseminação das ideias revolucionárias. As mulheres negras, frequentemente invisibilizadas pelos registros oficiais, eram agentes fundamentais na comunicação entre os diferentes setores do movimento. Elas conheciam os casarões, os becos, as igrejas—os espaços onde a conspiração se desenrolava.
Sua participação não era passiva. Eram militantes conscientes de um projeto de transformação social que as tocava profundamente. Para elas, a abolição não era uma questão abstrata de justiça, mas uma questão de sua própria libertação e da de seus filhos, familiares e comunidade. Essas mulheres enfrentavam múltiplas formas de opressão: o racismo estrutural, o sexismo, a exploração econômica e, para muitas delas, a escravidão. Sua presença na Conjuração Baiana é um testemunho de que as mulheres negras não esperaram por permissão para lutar por sua libertação. Elas agiram, conspiraram, organizaram-se e pagaram o preço por sua coragem.
A participação das mulheres negras na Revolta dos Búzios faz parte de uma tradição de resistência que marca a história do Brasil desde os tempos da escravidão. Luiza Mahin, quituteira e mãe de Luiz Gama, foi crucial na articulação de movimentos como a Revolta dos Malês e a Sabinada. Maria Felipa de Oliveira, heroína da Independência da Bahia, liderou mulheres e homens, em sua maioria negros e indígenas, na defesa do território contra as tropas portuguesas, incendiando embarcações inimigas. Essas figuras representam a continuidade das lutas das mulheres negras, mostrando que a Conjuração Baiana não foi um evento isolado, mas parte de um movimento contínuo de resistência.
A repressão e o legado
A conspiração baiana foi reprimida com extrema violência. Em 8 de novembro de 1799, quatro jovens revolucionários foram enforcados na Praça da Piedade: Lucas Dantas, Manuel Faustino, João de Deus e Luiz Gonzaga das Virgens. Seus corpos foram expostos publicamente como forma de intimidar a população. Mas a repressão não atingiu igualmente todos os envolvidos. As punições mais severas recaíram sobre os participantes pobres, negros e mestiços. As mulheres negras que participaram da conspiração enfrentaram uma repressão particularmente cruel: além de perseguidas por sua atuação política, foram castigadas por desafiarem os papéis de gênero impostos pelo sistema colonial. A violência contra elas foi múltipla: racial, de classe e de gênero.
Apesar da derrota militar, a memória dos mártires da Revolta dos Búzios passou a representar a resistência de setores populares contra a opressão e a desigualdade. Suas ideias não desapareceram. Continuam ecoando como um chamado à ação para todos nós.
O compromisso com a reparação histórica
O Instituto Afroamérica Bahia reafirma seu compromisso inabalável com a reparação histórica que ainda não foi feita. A história do Brasil foi forjada na escravidão de milhões de africanos. Séculos de sequestro, estupros, trabalho forçado e morte constituíram uma dívida histórica que permanece sem reparação. Após a abolição formal em 1888, o Estado brasileiro nunca reconheceu essa dívida nem ofereceu qualquer forma de reparação aos descendentes daqueles que foram escravizados.
Hoje, mais de 135 anos depois, as consequências dessa negligência são visíveis em cada estatística de desigualdade racial que marca nosso país. Mulheres negras morrem em partos por falta de acesso à saúde. Jovens negros são exterminados pela violência estatal. Famílias negras vivem em comunidades empobrecidas enquanto o Brasil concentra riqueza nas mãos de uma elite predominantemente branca. A Bahia, com seus 79,5% de população autodeclarada negra—a maior fora do continente africano—continua enfrentando desigualdades profundas. Entre 2005 e 2015, 83% dos óbitos maternos na Bahia foram de mulheres negras. Esses números não são apenas estatísticas. São histórias de vidas ceifadas, de oportunidades negadas, de dignidades ultrajadas.
A reparação que defendemos inclui políticas públicas afirmativas robustas, ampliação das cotas em universidades e concursos públicos, investimentos massivos em educação antirracista, reconhecimento e proteção dos territórios tradicionais negros e indígenas, criminalização efetiva do racismo e responsabilização civil e moral de instituições públicas e privadas que perpetuem a discriminação. Mas a reparação que defendemos tem uma dimensão específica e central: a valorização e o empoderamento das mulheres negras. Elas carregam o peso de séculos de exploração—sexual, econômica, racial. A reparação histórica precisa colocá-las no centro, reconhecendo seu papel fundamental nas lutas pela libertação e garantindo que elas tenham acesso real aos direitos, recursos e poder de decisão.
Uma das frentes fundamentais dessa luta é a educação antirracista. As mulheres negras que participaram da Revolta dos Búzios precisam ser lembradas não como notas de rodapé na história, mas como protagonistas. Suas histórias precisam ser ensinadas nas escolas, discutidas nas universidades, celebradas nas comunidades. Porque quando as mulheres negras conhecem suas próprias histórias de resistência, quando veem seus ancestrais como lutadores e lutadoras pela liberdade, isso muda a forma como elas se veem a si mesmas e o mundo.
O tempo feliz ainda pode chegar
As palavras gravadas em panfletos em agosto de 1798 permanecem como um chamado à ação. “Animai-vos, povo bahiense, que está por chegar o tempo feliz da nossa liberdade, o tempo em que seremos todos irmãos, o tempo em que seremos todos iguais.” Essas palavras foram escritas por homens e mulheres que compreenderam que a libertação era possível, que a igualdade era alcançável, que outro mundo era viável.
Mais de dois séculos depois, o tempo feliz ainda não chegou completamente. Mas a luta continua. E ela continua porque as mulheres negras continuam na linha de frente, como sempre estiveram. O Instituto Afroamérica Bahia convida todos e todas a se juntarem a essa luta. Convida a honrar o legado das mulheres revolucionárias de 1798 não apenas com palavras, mas com ações concretas. Porque, como aquelas mulheres compreenderam há mais de dois séculos, a libertação é uma luta coletiva. E ela só será conquistada quando colocarmos as mulheres negras no centro, quando reconhecermos seu papel fundamental, quando garantirmos que elas tenham acesso real aos direitos, recursos e poder de decisão.
O tempo feliz da liberdade ainda pode chegar. Mas só chegará se nós, juntos e juntas, continuarmos a luta que aquelas mulheres revolucionárias iniciaram em 1798.
