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* Por Eric Gil Dantas e Marcos André dos Santos

Nas últimas semanas, diversos jornais baianos noticiaram que a Acelen vem cortando os preços dos combustíveis na Refinaria de Mataripe, antiga RLAM, comprada pela Mubadala em 2021. É verdade em relação aos picos registrados entre abril e junho deste ano, a gasolina caiu 26,5%, o diesel S-10 22,1% e o GLP 14,9%. Mas essas notícias servem apenas para camuflar o problema real – mesmo depois dos cortes, a Acelen segue cobrando muito mais caro do que a Petrobras e, em dois dos três combustíveis mais consumidos pela população, também mais caro do que custaria importar o produto pronto do exterior.

No dia 8 de setembro, a Petrobras vendia a gasolina a R$ 2,61 e a Acelen a R$ 3,36, 28,7% a mais. O diesel S-10 saía por R$ 3,30 na Petrobras e R$ 5,13 na Acelen, 55,3% a mais. E o botijão de 13kg de GLP custava R$ 34,70 na Petrobras contra R$ 47,36 na Acelen, 36,5% a mais, ou R$ 12,66 a mais por botijão. Não são casos isolados: nos últimos 12 meses, a Acelen cobrou em média 22% a mais que a Petrobras na gasolina, 28,6% a mais no diesel e 35,1% a mais no GLP (Gráfico 1).

Isso significa que a Acelen apenas segue o preço internacional, como a empresa costuma alegar? Testamos essa hipótese comparando, semana a semana, o preço da Acelen com o Preço de Paridade de Importação (PPI, calculado pela ANP) – o custo estimado de trazer o combustível pronto do exterior – nos terminais de Aratu (BA), referência para gasolina e diesel, e de Suape (PE), referência mais próxima disponível para o GLP. O resultado desmonta a versão de que a empresa “só repassa o mercado internacional” (Gráfico 2).

No GLP a distorção é gritante: nas últimas 78 semanas (18 meses), a Acelen cobrou acima do PPI em 95% delas, com diferença média de 30,9%, chegando a 56% acima da paridade em julho deste ano. Na gasolina, ficou acima do PPI em 81% das semanas, média de 5,8%. Já no diesel a distorção é menor: acima do PPI em 60% das semanas, mas com média de apenas 0,6%. Ou seja, no diesel a Acelen efetivamente se aproxima da paridade internacional, mas nos outros dois ela cobra bem acima dos preços de importação – mesmo sendo uma refinaria atuando no Brasil.

Essa distorção só é sustentável porque a Acelen é monopolista na Bahia. Dados da ANP mostram que a Refinaria de Mataripe respondeu, nos sete primeiros meses de 2026, por 81,5% da gasolina, 100% do diesel S-10 e 97,1% do GLP entregue no estado vieram da Refinaria de Mataripe. Trocou-se o monopólio estatal por um monopólio privado estrangeiro, sem qualquer ganho de concorrência para a Bahia.

Esse preço mais alto na saída da refinaria já chegou ao bolso do consumidor. Comparando o preço médio de revenda ao consumidor (ANP) entre novembro de 2021 – mês anterior à privatização – e julho de 2026, o GLP ficou 22,6% mais caro na Bahia, contra apenas 8,9% em Pernambuco, estado vizinho que manteve sua refinaria (RNEST) com a Petrobras, e 10,7% na média do restante do país. Antes da privatização a Bahia pagava o mesmo preço médio de GLP que Pernambuco e ficava 8,3% abaixo da média nacional; hoje paga 12,6% a mais que Pernambuco e 1,5% acima da média do Brasil (Gráfico 3). O diesel S-10 seguiu o mesmo caminho: alta acumulada de 33,1% na Bahia contra 27,8% em Pernambuco e 27,5% no resto do país. Já na gasolina a diferença aparece de outro modo: enquanto o preço médio nacional, sem a Bahia, caiu 2,4% no período, na Bahia ele subiu 2,3%.

Cortar preços que estavam em patamares recordes não foi gesto de boa vontade, foi apenas resposta à queda do pico do petróleo após o arrefecimento da guerra contra o Irã. A Acelen segue lucrando às custas do povo baiano, com preços muito acima da Petrobras e, na gasolina e no GLP, também muito acima do que custaria importar o combustível pronto, provando que o discurso de que a empresa “só segue o mercado internacional” não passa de cortina de fumaça para justificar sobrepreço. Trata-se de um monopólio privado estrangeiro que decide sozinho, sem qualquer controle social, o preço do gás de cozinha, da gasolina e do diesel de toda a Bahia. É urgente que a Petrobras reestatize a refinaria, para que a Bahia não pague sozinha os custos das privatizações do governo Bolsonaro.

* Eric Gil Dantas é economista do Ibeps e da AEPET-BA

* Marcos André dos Santos é presidente da AEPET-BA


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