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Da Revolta dos Búzios ao Comitê Nacional de Lutas pela Reparação

“Animai-vos, povo bahiense, que está por chegar o tempo feliz da nossa liberdade, o tempo em que seremos todos irmãos, o tempo em que seremos todos iguais.” A mensagem, afixada nas ruas de Salvador em 12 de agosto de 1798, sintetizava o projeto político da Revolta dos Búzios — também conhecida como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates. Mais de dois séculos depois, suas palavras continuam a interpelar o presente.

Protagonizado por negros e negras, trabalhadores pobres, soldados, artesãos e alfaiates, o movimento baiano defendia liberdade, igualdade, participação popular, melhores condições de vida e o fim da escravização. João de Deus do Nascimento, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luiz Gonzaga das Virgens pagaram com a própria vida a ousadia de imaginar uma sociedade republicana e abolicionista. Enforcados em 1799, tornaram-se símbolos de uma luta que a repressão não conseguiu apagar.

A carta dos revoltosos expressava a esperança de um povo submetido à exploração colonial, à fome, à desigualdade e à violência. O “tempo feliz” anunciado não era uma promessa abstrata: significava o direito de viver com dignidade, de participar das decisões públicas e de romper com uma ordem fundada na hierarquia racial. Na Bahia, a liberdade foi pensada desde as ruas e a partir da experiência concreta daqueles que sustentavam a sociedade, mas permaneciam excluídos de seus direitos.

É nessa memória de resistência que se insere o lançamento formal do Comitê Nacional de Lutas pela Reparação, marcado para sexta-feira, dia 28 de agosto, das 10h às 12h, na Câmara Municipal de Salvador. A iniciativa pretende reunir organizações, lideranças e cidadãos negros e negras em uma terra marcada por lutas históricas, reafirmando que lembrar os mártires da Revolta dos Búzios também é assumir as tarefas do presente.

A escravização terminou formalmente, mas suas estruturas permanecem visíveis. O racismo ainda empurra a população negra para a pobreza, restringe o acesso à educação de qualidade e ao emprego digno, produz desigualdades salariais e limita a presença negra nos espaços de poder. A juventude negra continua sendo a principal vítima da violência letal, enquanto o encarceramento em massa transforma a desigualdade racial em política cotidiana de controle e exclusão.

Não há liberdade plena quando o nascimento define as oportunidades, quando a cor da pele aumenta o risco de morrer ou ser preso, quando famílias inteiras são condenadas à precariedade e quando a escola pública não consegue garantir um futuro para crianças e jovens. A reparação, portanto, não pode ser reduzida a um gesto simbólico. Ela exige políticas públicas permanentes, recursos, participação social e mecanismos capazes de enfrentar as consequências econômicas, sociais, culturais e políticas de séculos de escravização.

O Comitê Nacional de Lutas pela Reparação nasce para fortalecer essa agenda e defender a criação de um fundo de reparação, instrumento necessário para transformar reconhecimento histórico em ação concreta. O objetivo é financiar medidas que ampliem direitos, promovam igualdade racial e enfrentem as desigualdades que atingem os territórios negros, especialmente nas áreas de educação, trabalho, saúde, segurança pública, cultura e desenvolvimento comunitário.

A Revolta dos Búzios foi derrotada pela força, mas seus ideais sobreviveram. Hoje, a pergunta deixada pelos revoltosos permanece atual: que sociedade estamos construindo e quem ainda está impedido de viver como igual? O lançamento do Comitê é um chamado à organização e à responsabilidade histórica. Em Salvador, onde a memória da resistência se mistura à vida cotidiana, a luta pela reparação retoma o fio interrompido em 1798 e afirma, para o presente e para o futuro, que o tempo da liberdade só será completo quando a igualdade deixar de ser promessa e se tornar realidade.

Comitê Nacional de Lutas pela Reparação

 


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