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Por Eric Gil Dantas, economista do Ibeps

A Petrobrás anunciou ontem (09/11) seu resultado financeiro para o 3º trimestre. O destaque de todos os jornais foi, obviamente, a queda de 42% no seu lucro líquido. Apesar de, a princípio, o resultado parecer negativo, temos muito mais a comemorar do que a lamentar a queda do seu lucro. Neste artigo vou mostrar os cinco principais fatores que geraram essa queda e porque afirmo que não são más notícias.

Antes de mais nada é importante lembrar que o lucro líquido não é o melhor indicador para entender o resultado da Petrobrás, pois neste número está contido uma série de fatores que não estão ligados ao desempenho da empresa, tais como baixas contábeis, variação cambial, receitas com desinvestimentos, despesas extraordinárias etc. Para contornar este caminho tortuoso temos que olhar para números como as receitas de vendas e o fluxo de caixa operacional.

A receita de vendas da estatal diminuiu 26,6% no terceiro trimestre se comparado ao mesmo período do ano anterior. E o que são as receitas da Petrobrás? A fonte mais relevante destas receitas vem da venda de derivados no mercado interno, 61%. O diesel é o produto individualmente mais relevante, com 32% do total de receitas, a gasolina tem 13% e os outros derivados no mercado interno (GLP, QAV, Nafta etc.) somam 15% do total. Já a venda de petróleo para o mercado interno (excetuando o que a estatal usa para produzir seus próprios derivados) soma 5%, mesmo valor do gás natural para o mercado interno. Já as exportações somam 26%, vindos principalmente da exportação de petróleo (19%) e de venda de óleo combustível (5%).

Como os preços destes produtos caíram, logicamente as receitas também diminuíram. O brent (1º fator) diminuiu 14% do seu preço em dólar, saindo de US$ 100,85 (3tri/22) para US$ 86,76 (3tri/23). Além disto, o Real também se valorizou diante do dólar (2º fator) em 7,6% neste período. Com isto, o barril de petróleo em R$ saiu de R$ 529 para R$ 423, queda de 20%. Mas como a Petrobrás aumentou sua produção de petróleo em 9,6% e suas exportação de óleo em 65%, a receita com venda de petróleo ficou praticamente estagnada (+1,1%), anulando o que seria o efeito positivo da maior produção de óleo.

Já o preço dos derivados no mercado interno caiu fortemente (3º fator), uma queda de 33% se comparado ao mesmo trimestre do ano anterior. A maior parte disto ocorreu porque os preços internacionais caíram (neste período o PPI do diesel S-10, por exemplo, caiu 22%), já o restante desta queda está ligado à mudança de política de preços. Segundo dados extraídos da ABICOM, no terceiro trimestre a gasolina vendida pela Petrobrás ficou 16% abaixo do PPI e o diesel S-10 7% abaixo do PPI. Com preços menores as receitas com venda de derivados no mercado interno caíram 31,9%. A queda nas receitas com derivados só não foi igual aos 33% de queda nos preços porque a Petrobrás aumentou suas vendas com estes produtos (a empresa vendeu 1,3% a mais do que no 3tri/22).

Já no fluxo de caixa operacional da companhia, quando somamos a receita vinda da venda dos seus produtos subtraindo o que ela gastou para produzi-los (despesas operacionais), temos uma queda de apenas 10,6% – muito menor do que os 42% de queda do lucro líquido. A companhia afirmou que os US$ 11,6 bi de fluxo de caixa operacional foi o quarto maior da sua história, o que demonstra a solidez da operação da empresa – mesmo em um cenário muito diferente dos anos de 2021 e 2022. Já o fluxo de caixa operacional livre, quando deduzimos também os investimentos (e que é o número considerado para pagar dividendos), teve uma queda maior, de 22,7%.

Isto ocorreu porque os investimentos da empresa subiram (4º fator). A Petrobrás investiu 59% a mais neste trimestre se compararmos ao 3tri/22, R$ 6,2 bilhões a mais. Isto é um aspecto muito positivo. Nos nove primeiros meses a Petrobrás aumentou em quase R$ 11 bilhões os seus investimentos, principalmente no E&P (+72%), mas também no refino (+9,3%). De qualquer forma a Petrobrás deve acabar o ano investindo US$ 13 bilhões, US$ 3,2 bilhões a mais do que em 2022.

Por fim, temos o fim da entrada massiva de dinheiro por conta das privatizações (4º fator). A companhia arrecadou R$ 2,37 a menos com venda de ativos neste trimestre se comparado ao mesmo do ano anterior. Isto significa menos receitas para o lucro líquido.

Há mais alguns elementos que são importantes pontuar aqui. O fator de utilização das refinarias ficou em 96%, 5 pontos percentuais a mais do que no 3ºtri/22, o maior nível trimestral dos últimos 9 anos. Com isto a companhia processou 4% a mais de petróleo em suas refinarias do que no ano passado (mesmo sem a SIX, Reman e Clara Camarão). A Petrobrás fez uma recompra de ações de quase R$ 1 bilhão, o que também é positivo. A companhia aprovou mais R$ 17,5 bilhões em dividendos, o que mostra que a Petrobrás deve seguir de fato com sua política atual de remuneração e deverá continuar sendo uma pagadora de volumosos dividendos, muito mais do que qualquer outra empresa no país, o que afeta a sua capacidade de investimento da empresa e a possibilidade de ter uma política mais ousada para preços justos de combustíveis.


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